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Se bem que nada o fizesse prever, escolher uma música para um post natalício acabou por ser tão complicado como escolher prendas. «Santo é o Senhor», do cantor evangélico Marco Aurélio, foi a 1ª escolha pelas razões que saltam aos tímpanos. Ficando a paródia demasiado estridente, foi logo substituído por «Patterns for Fairytales» (The National). Vantagens: a canção nada tem a ver com o Natal; o seu nome tem tudo. Desvantagem: uma crescente unanimidade que se vem criando em certos meios em volta da banda – não que o preconceito «se muitos gostam, eu não» não seja equivalente ao seu oposto na medida em que o gosto pessoal continua a depender de opiniões alheias, mas… melhor seria escolher outra.

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Experiências: «That was the worst Christmas ever!» (Surfjan Stevens), «Jesus was a Mexican Boy» (Iron & Wine), «Chocolate Jesus» (Tom Waits), «Welcome Christmas» (Califone). Qualquer uma delas se adequava e quase todas fazem parte das inevitáveis listas natalícias de inúmeros mp3bloggers (cfr. busca por «christmas» ou «jesus» na Hype Machine). Neste caso, porém, mesmo admitindo que as gentes das margens do comércio precisam facturar tanto ou mais do que aqueles que assumem esse comércio como modo de vida, fica quase sempre no ar uma mistura de desconfiança e desagrado.

Mais experiências: «Santa doesn’t cop out on drugs» (Sonic Youth), «Late Night Bedroom Rock for Missionaries» (Broken Social Scene), «Kingdom of Heaven» (13th Floor Elevators), «Fuck Christmas, I got the Blues» (Legendary Tiger Man). Tudo muito certo, excepto alguns sons demasiado agrestes para a infantilidade do post. Já em desespero, cheguei mesmo a experimentar o autodescritivo «My Darkest Light Will Shine» (Felt), até que, por fim, surgiu a escolha ideal. «Decoration Day» (Cowboy Junkies): a tonalidade certa, o título perfeito para o post, e a letra acerca de um homem good and kind in his way morto em combate; ou seja, coolness bastante para dar a busca por encerrada.

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Entretanto, esta profissão desgraçada, que me obriga a conviver quase diariamente com grupos profissionais diferentes, levou-me a passar a tarde de 6ª Feira com uma dúzia de indivíduos bem vestidos (sem fatos), bem falantes (demasiados advérbios de modo, talvez), e com profissões à partida interessantes. No início, cheguei a pensar que aquela tarde até poderia servir de contraste positivo para a miséria, tragédias pessoais e conflitualidade que costumam rodear-me meia dúzia de horas por dia. Nada mais errado. Deu para perceber que gostavam de música de que também gosto, que dominavam conceitos e nomes que me são familiares e, no entanto, raramente assisti a tamanha exibição de tiques e clichés típicos de parnasianos com roupagens modernas. É provável que não passe de uma generalização, pois existem pessoas des/interessantes em qualquer sítio, mas raismepartam se o objectivo principal do seu discurso não era apenas a pura ostentação de bom gosto, como se isso fosse bastante, como se fosse só isso o que importa comunicar hoje em dia.

So much for coolness... «Decoration Day» já não era suficiente como escolha ideal para música de Natal. Era preciso desequilibrá-la com algo pimba. Santo foi o Senhor Marco Aurélio por me ter permitido ver para além das aparências.

(gifs em www.glitter-graphics.com)