hoje conheci um cadáver
Para ser mais exacto, pareceu-me reconhecê-lo quando um colega debruçado sobre um relatório de autópsia brincou com uma coincidência qualquer na data de nascimento.
Pedi-lhe o relatório. Da reprodução anormalmente nítida do B.I. ressaltava um olhar que metia dó. Menor lividez seria difícil de encontrar. Fosse aquela cara uma pauta, quantos bemóis e sustenidos de Harold Budd não estariam escondidos nas sombras que desciam das olheiras até às covas entre os maxilares.
Pouco mais podia ser retirado da foto. À procura de mais indícios que confirmassem aquela cara, saltei algumas folhas até às conclusões do relatório: o resultado do exame toxicológico tinha sido negativo; lesões do hábito interno tinham sido a causa da morte; para além da roupa e documentos, € 7,85 em moedas e uma aliança amolgada tinham sido registadas como os bens pertencentes ao cadáver.
Num anexo ao relatório, um parente afastado declarava-o solteiro, como tendo vivido num quarto alugado, sem relações afectivas nem descendentes conhecidos. Mais informou que os seus pais tinham falecido há vários anos e que ganharia cerca de € 450 como empregado de balcão numa loja de tecidos perto do Campo dos Mártires da Pátria.
A participação policial referia que o cadáver, ao volante de um Fiat Uno, tinha desrespeitado um sinal vermelho e entrado em excesso de velocidade num cruzamento perto de Moscavide, onde foi colhido por um camião-cisterna carregado de vinagre.
Terminada a leitura do relatório, o meu colega perguntou com malícia se tinha encontrado mais coincidências para além da data de nascimento. Não lhe respondi. Longe das cores saturadas do CSI Miami, as mortes não costumam fazer tanto sentido. Nesta, com quase todos os pormenores a bater demasiado certo, era fácil imaginar que o desrespeito do sinal vermelho não tinha resultado de uma distracção.
Ficou, ainda assim, por apurar o que fazia um cadáver solteiro com uma aliança amolgada e se esta já se encontraria nesse estado antes do acidente. Sendo suposto as alianças existirem aos pares, fiquei sem saber se haveria algures uma também amolgada no dedo de uma ou de todas as pessoas que ele conheceu.
