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Por vezes, o enfado com a atipicidade leva-me a imaginar cenários parecidos com este:
Se tivesse crescido numa daquelas famílias retratadas em certos filmes de remotas tardes de Domingo, em que os pais estão quase sempre presentes e nunca discutem, trocam afectos entre si e com os filhos, têm tempo livre para brincar com eles e ensinar-lhes meia dúzia de rudimentos fundamentais sobre o futuro provável; em que os passeios de fim-de-semana nunca são uma estopada, e os silêncios não pesam durante as refeições, nem surgem ataques de pânico quando os adolescentes se viram para os pais e dizem coisas como: «ando a fumar charros há um mês... o que acham disso?», «sim, a minha namorada é muito nova... gosto muito dela, mas já lhe disse que não é para sempre... vem visitar-me esta tarde, podemos ficar sós?»; se tivesse crescido num meio semelhante, talvez hoje conseguisse falar do tempo sem esforço, ver telejornais e telenovelas, jogos de futebol até ao fim, ouvir com prazer André Sardet e Marcelo Rebelo de Sousa, 50 Cent e Miguel Sousa Tavares, Beyoncé e Catarina Furtado, votar apenas no PS-PSD, calçar sapatos de vela, vestir cores vivas, ter relações sexuais a horas certas, persistir em relacionamentos íntimos e públicos que não levam a lado nenhum, desconfiar de tudo o que situa nas margens, e achar tudo isso natural e satisfatório.

Comments

Este texto é de chorar a rir.

É que ele há gente que julga que a electricidade, o telefone e os aviões sempre existiram. Vivem na redoma das públicas virtudes.

realmente, Maria, há ali alguma galhofa mas não foi divertido ver isto a sair (demasiado strip:)