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200px-Pretenders-backonthechaingang.jpgMaria, não existem 10 livros que tenham mudado a minha vida. Ainda me falta ler uns poucos dos ainda preferidos Vonnegut e Boris Vian, mas, dos restantes vinte e muitos, se é admissível que alguns deles mudaram a minha maneira de ler, creio que nenhum modificou a minha vida de forma visível.

Talvez Vonnegut tenha conseguido travar o consumo desenfreado de ficção científica por volta dos 18 anos, e reforçado a desconfiança nas crenças organizadas. Não duvido que Boris Vian me levou a rejeitar o mofo clássico impingido na faculdade. Ainda assim, não obstante a aversão ao sufoco da regra e da convenção, foi aí que tive que estudar um conto (um clássico!) de Hemingway, “A Clean, Well-Lighted Place”, que me abanou de alto a baixo durante algum tempo.

Desenvolvendo este paradoxo estuporado: a atracção pelas margens não impediu um romance (um best-seller, que vergonha!) de ser o único que terá influenciado demasiados anos da minha vida. Abomino-o por isso, e por só ter reparado na mudança depois de ela ter acontecido.

Cheguei a lê-lo uma meia dúzia de vezes antes dos 15 anos, muito por culpa do furgão da Gulbenkian efectuar apenas uma distribuição semanal na minha cidadezinha natal. Mais tarde, perto dos 30, calhou tê-lo relido, e foi doloroso reparar que não me encontrava exactamente vivo; por dentro e por fora, tinha-me tornado uma personagem inventada 50 anos antes por um inglês que, segundo dizem, também não tinha vivido, antes observado. Como se isso não bastasse, alguém teve a infeliz ideia de traduzir o livro para o cinema, e escolher o pai da cantora pimba Romina Power para representar o tal papel.
Tudo isto foi mau demais. Já ficou para trás, mas teria preferido não despertar esta memória, não levar com esta corrente em cima. Daí que não a atire para os ombros de mais ninguém. Do tal livro, que me recuso a identificar, um excerto:

(…) em geral, as pessoas fazem a um escritor confidências que não fariam a outros. Desconheço a razão, a não ser que, por terem lido um ou dois dos seus livros, se consideram íntimos dele. Ou talvez se dramatizem a si próprias e, vendo-se como personagens de um romance, resolvam falar-lhe com a mesma franqueza (…)

Comments

C'um carago que tanta rapidez deve ser sinónimo de férrea vontade de libertação. :)

Muito Obrigada!:) (que é uma expressão tão vulgar que não corro o risco de impositivamente mudar a tua vida ;)

E sobre as confissões, tenho cá para mim que as fazemos quando nos parece que quem as recebe não nos vai julgar mas apenas escutar. O conforto é um par de orelhas. :))

o conforto é um par de orelhas. gostei