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O segundo é bonito, elegante, bem constituído; dá gosto vê-lo em posição de esgrima. Também ele é inteligente, mas além disso conhece mundo; viu muito, e é por isso que a natureza da terra onde nasceu parece falar-lhe mais cumplicemente do que aos que dela nunca saíram. Esta sua qualidade, porém não se deve apenas e nem sequer essencialmente às suas viagens. Prende-se sobretudo com o que este rapaz tem de inimitável e que é reconhecido, por exemplo, por todos aqueles que querem imitar o seu mergulho artístico, quando dá uma série de voltas sobre si mesmo, mas sempre com um domínio surpreendente. A coragem e a vontade ainda vão até à ponta da prancha. Aí chegado, porém, em vez de saltar, o imitador senta-se de repente e desculpa-se levantando os braços. E apesar de tudo isto (devia dar graças por um filho assim) a minha relação com ele não deixa de ser conturbada. O seu olho esquerdo é ligeiramente mais pequeno do que o direito e pestaneja muito; um defeito menor apenas, é claro, que até torna o seu rosto mais ousado do que seria no caso contrário, e perante a perfeição inatingível do seu carácter, ninguém apontará um dedo reprovador a este olho mais pequeno que pestaneja. Eu, o pai, aponto. Naturalmente que não é este pequeno defeito que me magoa, mas antes uma pequena inconstância de espírito que de algum modo lhe corresponde, um qualquer veneno perdido no seu sangue, uma qualquer incapacidade de cumprir por inteiro aquela tendência da sua vida que só eu entrevejo. Por outro lado, contudo, é precisamente isto que faz dele um verdadeiro filho meu, pois este seu defeito é ao mesmo tempo o defeito de toda a nossa família e que neste filho apenas é demasiado evidente.

Franz Kafka, "Onze Filhos", (2/11)