
![]()
O sétimo filho talvez me pertença mais do que todos os outros. O mundo não sabe dar-lhe valor; não compreende o seu humor. Não o sobrestimo, sei que ele é bastante insignificante; se a única falha do mundo fosse não saber dar-lhe valor, o mundo seria ainda assim imaculado. Mas dentro da família este meu filho não poderia faltar. Traz tanto um desassossego como também uma reverência perante a tradição, e consegue unir ambos, pelo menos assim o sinto, num todo intocável. Ele próprio, contudo, é quem menos sabe o que fazer com este todo; nunca fará girar a roda do futuro; mas esta sua maneira de ser é tão animadora, tão cheia de esperança. Gostaria que ele tivesse filhos e que os seus filhos tivessem filhos. Infelizmente, este desejo parece não querer cumprir-se. Com uma sobranceria que na verdade entendo, ainda que não deseje, e que sobretudo contradiz claramente o juízo daqueles que o rodeiam, vagueia por aí sozinho, não quer saber de raparigas, e ainda assim nunca perderá o seu bom humor.
Franz Kafka, "Onze Filhos", (7/11)
Comments
Já os teus filhos desenhados e escritos te colocam por aí aos pinchos de encontro aos outros.
Posted by: maria árvore | setembro 5, 2007 10:49 AM