Parece contradição, mas não é: quanto mais aprecio biografias, maior é o bocejo diante da epidemia, em jornais e blogues, de discursos na 1ª pessoa, como neste post, afinal. «Confesso que», «Eu isto, eu aquilo». Pouco faltará para «Ontem defequei oito vezes. Hoje, nem por isso». Soa quase a conversa de moribundos com receio da memória curta da posteridade. Por este caminho, melhor seria, para quem lê, transformar cada coluna de opinião, cada post, num epitáfio. O meu não seria muito diferente deste:
Fulano de tal
Sem abrigo até 1994. Com desde então.
Quando lhe perguntavam o que fazia para viver, para não dizer
que se limitava a respirar ou a comer o mundo com os olhos,
iludia a questão descaradamente, respondendo que:
já não vivia desde 1994 (quando mudou de tecto);
entrou em coma em Dezembro de 2004 (quando começou a ler blogues);
morreu de vez no Verão de 2006 (quando recomeçou a ler livros furiosamente).
Continua abrigado no Cemitério dos Prazeres.
Comments
Enquanto estás no Cemitério dos Prazeres a terra só te pode ser leve em "cada centímetro redondo da pele" (sic de cabeça). ;)
E embora perceba o bocejo que até partilho, há o desejo humano de não se ser professor ordinário mas titular. ;)Logo, o melhor é só lambermos os umbigos de que gostamos. :)
Posted by: maria árvore | setembro 1, 2007 02:37 PM