no cinema King, desde 2.8.07
Democracia, ano 1. Terra pouco arejada de ventos de progresso e legalidade. Os aldeões ao patrão chamam «duque», ao casarão chamam palácio, e «esta não é uma herdade, é um reino». Súbditos que arrastam enxadas, que equilibram cântaros de água à cabeça, que escaldam as mãos para desinchá-las dos cardos e espinhos entranhados. Este é um documentário sobre os dias em que esta espécie de servos da gleba passou a chamar-se «massas trabalhadoras». E sobre, como dizia a canção, «a sede de uma espera só se estanca na torrente», porque «esperar tantos anos torna tudo mais urgente».
Mas afinal quem é este povo assombrado que entra titubeante nos salões sóbrios daquela nobreza? E que repara nos paramentos do clero e na armadura medieval? E que revolve as gavetas dos senhores com um decoro quase comovedor? E que pousa pela primeira vez as mãos calejadas num teclado? […]
O filme começa com um longo travelling aéreo sobre os 2.000 hectares de herdade, terra fértil infertilizada, convertida em reserva de caça e veraneio para os «duques» e seus amigos passarem fins-de-semana. Thomas Harlan apresenta primeiro o palco. Em seguida, as personagens e as suas vozes. Pouco a pouco, a câmara vai isolando os protagonistas. Nada de análises, nada de entrevistas, nada de vozes off. Apenas factos. E uma montagem notável, e uma fluência rara. Ele e a equipa passaram oito meses a assistir à ocupação de uma terra, a um embrião de cooperativa agrícola. Democracia directa, quase pura. Sem relevantes interferências exteriores, muito menos do Partido Comunista. Sem grandes enquadramentos ideológicos. Nos tempos em que as palavras de ordem bastavam. […]
Os ocupantes da Torre Bela estão entregues a si mesmo. Lavram os campos, colectivizam até as sacholas. A ocupação é selvagem, mas pouco. Pisam melhor a terra do que o soalho encerado. Não irrompem por ali dentro como turbas ávidas de legitimidade revolucionária. São brandos os costumes, hesitantes os modos, debatidos os passos seguintes. O que os detém? Um misto de pudor, de temor reverencial, de consciência da ilicitude. Primeiro pedem a cumplicidade das forças armadas, só então forçam as portas. As mãos nas gavetas, nos livros, nas fotos aristocráticas, no piano. Entretanto, vem o 25 de Novembro, a revolução começa a afundar-se, deixa pelo caminho os náufragos da Torre Bela. Foi bonita a festa, pá. Não tão bonita como nas canções, nos filmes e nos sonhos. Teve a vantagem de, durante 572 dias, ter sido real.
(excertos de texto de Ana Margarida Carvalho, publicado na Visão de 2.8.07)
(tv)