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Com 18 anos, no Campo Alegre do Porto, tive a sorte de levar com uma professora de Inglês de quem só recordo a semelhança com Judy Dench e o nome Caroline. Dura como a Dench, pior do que um bife de cavalo, rigorosa como a maior parte dos professores que marcam os seus alunos, costumava utilizar as frequências para exigir-nos ensaios sobre assuntos que desafiavam a nossa sonolência. Um deles foi o aborto. Quando recebi o meu de volta, Caroline tinha escrito a vermelho no topo algo parecido com isto: «admito que o tema não é fácil; daí que não vá repreendê-lo pelo excesso de rasuras que tornaram difícil a minha leitura; agradou-me a força com que desenvolveu os seus argumentos, mas não cheguei a entender se é favor ou contra». Ao ler aquilo, lembro-me de ter pensado: «Foda-se! Um gajo farta-se de emendar frases para tornar o discurso mais claro, e as rasuras não deixaram a bife reparar numa frase perto do fim onde defendia que, no meio de tantas dúvidas e tantas contradições, pouco mais resta a cada mulher, a cada indíviduo, senão decidir o que fazer com o seu corpo».