À minha volta crescem os indícios de que o «NÃO» vai vencer. Talvez não tenha a ver com a omnipresença de imagens de fetos mortos. Talvez nem se deva à diferença que dizem ser abissal entre os orçamentos das duas campanhas. O certo é que a desproporção de meios é imensa. Por esse país fora, a Igreja Católica tem mobilizado as suas tropas como nem Mao-Tse-Tung conseguiu há 60 anos.
Muito mais do que nas homílias, onde só os padres mais lunáticos condenam abertamente o «SIM», é nos bastidores que as organizações paroquiais têm vindo a intensificar nos últimos meses as reuniões de uma míriade de grupos a que chamam de reflexão, onde os crentes participantes são instigados a divulgar como puderem os pontos de vista da hierarquia, e a participar sempre que possível em acções de campanha do «NÃO».
Refira-se que existe coerência nesse empenho. Em nome do que chamam direito à vida, as cúpulas da Igreja Católica têm-se manifestado amíude contra o uso sequer de anticoncepcionais.
Impossível é não desejar vê-los assim tão dinâmicos a mobilizar os crentes no combate à pobreza, a organizar marchas, a distribuir panfletos, e manifestarem-se com o mesmo vigor pela melhoria das condições básicas de vida nos bairros mais degradados. Nem que fosse também por coerência: a defesa dos pobrezinhos.
Não o fazendo, e restrigindo a sua militância a questões que me parecem ter por base uma aversão profunda a tudo que envolva a liberalização de práticas sexuais e a emancipação das mulheres, não é difícil olhar para a Igreja Católica no Ocidente como uma máfia de misóginos que ainda não deixou de considerar as mulheres merecedoras de castigo por um pecado original que nunca existiu senão num livro de ficção carcomido pela passagem do tempo.
Há 2000 anos conseguiram contratar novos actores, recriar personagens, actualizar o guião, e fidelizar o público durante 19 séculos. Mesmo vencendo no próximo Domingo, continuará a ser evidente a necessidade de uma outra renovação, sob pena de virem a perder a guerra de audiências com o seu principal adversário da actualidade - os «Morangos com Açúcar e Afins» - e com o seu inimigo de sempre – o corpo – esse antro de todos os vícios e do desejo, para bem dos nossos pecados.