" /> branco sujo: fevereiro 2007 Archives

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fevereiro 18, 2007

sunday noises

abschied1.JPG

fevereiro 13, 2007

urghh.PNG

fevereiro 12, 2007

claro que sim

Não fui vê-los no Sábado, nem no Domingo, com receio de publicar depois algum post com trocadilhos fáceis sobre o referendo (balelas, claro; estava de chuva e os posts de tom fácil sobre o assunto difícil já tinham sido feitos).

nin.jpg

É já daqui a 3 horas. O último dos primeiros concertos em Portugal. Se este for o último post neste blog, é sinal que não sobrevivi (balelas, claro; nestes concertos dos NIN nem sequer tem havido mosh para eu poder acabar desfeito).

comunicação social

- ‘Tou? Mãe? Como nunca mais ligavas...
- Não estava com muita vontade de te ver alegre... hoje.
- Caramba. Tu não perdeste nada e eu muito menos ganhei. Se alguém perdeu foram os donos daquele talho de que te falei. Bom, talvez a padralhada em que acreditas também tenha ganho alguma coisa...
- ?!
- ... a noção de que não têm tanto poder como eu pensava.
- E lá vens tu... como que correu a tua semana?
- Foi normal.
- A [Eunice] ainda gosta de ti?
- Demasiado.
- Não entendo. Sempre me pareceu inteligente... Os teus colegas gostam de ti?
- A maioria? Demasiado.
- E os teus vizinhos?
- Demasiado.
- Convencido... Tu não és assim.
- A sério. Gostava que me deixassem mais só. Preciso de mais tempo para mim.
- Juízo é o que tu precisas... raio de mania de andar ao contrário dos outros.
- Mãe, caramba. É verdade. O que me chateia nesta gente - enfim, a maior parte - é que não estão minimamente interessados no que alguém possa dizer. Lamentam-se por tudo e por nada, mas não dão um passo para melhorar seja o que for.
- E se...
- Querem é um par de ouvidos para despejar o que mais ninguém quer ouvir. Aqui ainda é pior do que aí. Já quase ninguém ouve ninguém.
- Eu estou a ouvir-te...
- A única maneira de conseguir alguma atenção é dizer o que não estão à espera... enfim, disparates para se rirem um bocadinho, para interromper conversas que não levam a lado nenhum. Começo a ficar cansado.
- Posso falar?
[...]

fevereiro 09, 2007

9.2.05
9.2.07
...... 2

fevereiro 08, 2007

oh gosh! she once hung so brightly
virgin-my-ass.jpg
now she wants to butcher babies

- Entendo as tuas razões mas não concordo com o teu voto [...] Acho que estamos sentados em colinas diferentes a olhar para um mesmo vale, pejado de fetos mortos. Da tua colina, vês um cemitério de bébés. Da minha, vejo um talho [...] O facto incontornável é que, seja qual for a colina, seja qual for o voto, vão continuar a despejar fetos naquele vale [...] O que me leva a acreditar que existem menos nuvens em volta da minha colina é que, com esta despenalização, o vale talvez fique menos parecido com um talho, e mais com um cemitério [...] Os cemitérios não são mais bonitos do que os talhos? [...]

Ao telefone com alguém tão teimoso quanto eu, e a quem, num momento mais conturbado da adolescência, acusei de não me ter perguntado se queria nascer. Ela disse-me que estava de saída para uma reunião de activistas do «Não» no salão paroquial. Imaginei logo dúzias de velhotinhas, e catequistas, e escuteiros, conspirando numa sala à meia-luz, sussurrando planos de raides contra clínicas de pecadores e sedes do PCP. Falei-lhe de saudades de Estaline e do tempo em que os comunas matavam os velhinhos com injecções atrás da orelha. Ela riu-se e disse-me para ter juizinho. Chamou-me palhaço. Eu perguntei-lhe se se notava assim tanto e mudei de estratégia. Servi-me de parábolas como a de cima. Ela marimbou-se completamente. Acabou por dizer que aquela não constava da Bíblia.

Com 18 anos, no Campo Alegre do Porto, tive a sorte de levar com uma professora de Inglês de quem só recordo a semelhança com Judy Dench e o nome Caroline. Dura como a Dench, pior do que um bife de cavalo, rigorosa como a maior parte dos professores que marcam os seus alunos, costumava utilizar as frequências para exigir-nos ensaios sobre assuntos que desafiavam a nossa sonolência. Um deles foi o aborto. Quando recebi o meu de volta, Caroline tinha escrito a vermelho no topo algo parecido com isto: «admito que o tema não é fácil; daí que não vá repreendê-lo pelo excesso de rasuras que tornaram difícil a minha leitura; agradou-me a força com que desenvolveu os seus argumentos, mas não cheguei a entender se é favor ou contra». Ao ler aquilo, lembro-me de ter pensado: «Foda-se! Um gajo farta-se de emendar frases para tornar o discurso mais claro, e as rasuras não deixaram a bife reparar numa frase perto do fim onde defendia que, no meio de tantas dúvidas e tantas contradições, pouco mais resta a cada mulher, a cada indíviduo, senão decidir o que fazer com o seu corpo».

Com esta despenalização, algumas mães até podem crer que vai ser mais fácil verem-se livres de filhos indesejados. É, contudo, insensato acreditar que, na hora de tomar essa decisão, a maioria dessas mães vai decidir abortar porque já é legal, e outra vez, mais fácil. Fácil, uma ova! Fácil é fecundar um óvulo. A maior parte das mulheres, nesse momento, vai, isso sim, pensar na dor e no risco, pois mesmo num hospital as coisas nem sempre correm bem; vai pesar a possibilidade de sequelas físicas, e o mais do que provável remorso por ter feito desaparecer um filho.

Tão básico quanto isto: sem esta despenalização, vai continuar a ser mais difícil abortar para quem tem pouco dinheiro. Ora, uma decisão destas nada deveria ter a ver com critérios de classe, de economia. Sabendo todos que vão continuar a acontecer abortos, seja em hospitais, clínicas espanholas, ou no vão de escada do bairro social, quem votar «Não», seja por motivos humanitários, morais, piedosos, ou hipócritas, vai simplesmente garantir que só as mulheres mais ricas continuem a poder abortar com maior segurança.

Ah sim... Planeamento Familiar. Quando se fala de aborto, todos, progressistas e conservadores, acham muito bem. Todos dizem querer implementado o planeamento familiar. Estando naturalmente implícita no planeamento familiar a educação sexual, é difícil entender como os conservadores mais estúpidos nem querem ouvir falar, ou desconfiam, da educação sexual nas escolas. Devem preferir que as suas crias aprendam os rudimentos nos «Morangos com Açúcar».

À minha volta crescem os indícios de que o «NÃO» vai vencer. Talvez não tenha a ver com a omnipresença de imagens de fetos mortos. Talvez nem se deva à diferença que dizem ser abissal entre os orçamentos das duas campanhas. O certo é que a desproporção de meios é imensa. Por esse país fora, a Igreja Católica tem mobilizado as suas tropas como nem Mao-Tse-Tung conseguiu há 60 anos.

Muito mais do que nas homílias, onde só os padres mais lunáticos condenam abertamente o «SIM», é nos bastidores que as organizações paroquiais têm vindo a intensificar nos últimos meses as reuniões de uma míriade de grupos a que chamam de reflexão, onde os crentes participantes são instigados a divulgar como puderem os pontos de vista da hierarquia, e a participar sempre que possível em acções de campanha do «NÃO».

Refira-se que existe coerência nesse empenho. Em nome do que chamam direito à vida, as cúpulas da Igreja Católica têm-se manifestado amíude contra o uso sequer de anticoncepcionais.
Impossível é não desejar vê-los assim tão dinâmicos a mobilizar os crentes no combate à pobreza, a organizar marchas, a distribuir panfletos, e manifestarem-se com o mesmo vigor pela melhoria das condições básicas de vida nos bairros mais degradados. Nem que fosse também por coerência: a defesa dos pobrezinhos.

Não o fazendo, e restrigindo a sua militância a questões que me parecem ter por base uma aversão profunda a tudo que envolva a liberalização de práticas sexuais e a emancipação das mulheres, não é difícil olhar para a Igreja Católica no Ocidente como uma máfia de misóginos que ainda não deixou de considerar as mulheres merecedoras de castigo por um pecado original que nunca existiu senão num livro de ficção carcomido pela passagem do tempo.

Há 2000 anos conseguiram contratar novos actores, recriar personagens, actualizar o guião, e fidelizar o público durante 19 séculos. Mesmo vencendo no próximo Domingo, continuará a ser evidente a necessidade de uma outra renovação, sob pena de virem a perder a guerra de audiências com o seu principal adversário da actualidade - os «Morangos com Açúcar e Afins» - e com o seu inimigo de sempre – o corpo – esse antro de todos os vícios e do desejo, para bem dos nossos pecados.