Não mudei de emprego, não troquei de casa, não troquei de carro. Fui aumentada abaixo da inflação, ganhei uns prémios, perdi outro por 69 pontos (cabrão de número!). Deram-me cabo do juízo e eu dei cabo do juízo a alguns. Mandei os médicos pastar e os remédios pela retrete abaixo. Emagreci uns quilos e tive de comprar roupa nova. Comprei uns sapatos novos para o carro. O mais longe que viajei foi Barcelona, mas a feira do sexo já tinha acabado. Não troquei de homem, fui trocando. Não me apaixonei nem me partiram o coração. Fui ao cinema como de costume. E fui para os copos de vez em quando. Aproveitei para visitar amigos, mesmo que as saudades não parem de aumentar. Quase morri por duas vezes. Chorei muito mais. Ri-me desalmadamente sempre que pude. Insultei condutores e políticos, com a mesma vontade e igual vigor. Confessei pecadilhos e lidei com culpas. Pedi desculpas um par de vezes. Pediram-me desculpas a mim. Não fiz um filho. Nem escrevi um livro. Nem plantei sequer uma árvore. Fui mal humorada, cabra muitas vezes. Ofereci ajuda sempre que o soube fazer. Escondi-me da vida mais um bocadinho e irritei-me por deixar a vida passar. Senti-me velha. Senti-me jovem. Fui ingénua. Fui sabida. Fui teimosa e fui mordaz. Fui amiga, acho, mesmo que nos meus silêncios. Fui ausente, demasiadas vezes. Estive presente sempre que me pediram. Beijei sempre que pude e tive vontade. Irisei-me com um par de assuntos e não sei quantas palmadinhas na cabeça. Confundi-me. Perdi-me. Calei-me. Gritei de dor e de prazer. Chorei com as histórias dos outros. Guardei as minhas lágrimas, como de costume. Aprendi algumas coisas. Repeti erros velhos. Não sonhei o suficiente. E não aconteceu nada de importante.