Elena
Tive de passar a maior parte desta manhã no Hospital de Santa Maria com uma violinista russa muito alta, magríssima, com uma elegância estranha que me agarrou a atenção. Com aquele sotaque divertido das gentes do Leste contou-me que tinha sido solista da Orquestra da Gulbenkian desde 1990 e poucos até 2003. Nesse ano, deu uma queda perfeitamente banal que lhe danificou um par de vértebras de tal modo que, desde então, ficou impedida de tocar violino.
O tempo de espera foi mais do que bastante para lhe fazer perguntas inusitadas e outras mais previsíveis. Como quase sempre - talvez porque as surpresas costumam inibir a maior parte das pessoas - as respostas às ultimas foram mais dignas de registo: disse-me que tinha abandonado o seu país com receio da confusão ocorrida no início da década de 90 e acrescentou «lá, quando há confusão, é sempre a sério», «não penso voltar», «gosto muito da maneira como vocês brincam com tudo», «aqui, quando há confusão, é raro alguém magoar-se».
Também me disse que a impossibilidade de tocar música nos últimos 3 anos estava a matá-la por dentro. Aí, olhei-a com alguma inveja por não conhecer nada neste mundo cuja falta pudesse corroer-me a esse ponto.