Screamin' Jay Hawkins
- Isso só aconteceria se fosse a primeira mulher que eu tivesse tido – disse Ana. – Mas há sempre uma espécie de degradação. Amamos muito a primeira, durante, vamos lá, dois anos. Quando chegas a essa altura, percebes que já não te causa o mesmo efeito.
- Porquê, se ainda a amas? – disse Ângelo.
- Garanto-te que é assim. Pode durar dois anos, ou menos, se escolheste mal. Nessa altura, dás-te conta que há outra que te causa o mesmo efeito. Contudo, desta vez só dura um ano. E assim sucessivamente. (...) Tornou-se um espécie de reflexo.
- Não acredito que proceda da mesma maneira.
- Não há nada a fazer. Somos todos assim. O facto é que não necessitamos de nenhuma mulher em especial.
- Fisicamente, talvez.
- Não. Não só fisicamente; mesmo intelectualmente pode passar-se perfeitamente sem uma mulher. São demasiado quadradas.
(...)
- Se me dessem a Rochela, se ela gostasse de mim, nunca mais precisava do amor de outra mulher.
- Precisarias, sim; dentro de dois, três ou quatro anos, precisarias. E se ela, nessa altura, ainda te amasse da mesma maneira, serias tu quem havia de arranjar um pretexto para mudar.
- Porquê?
- Para que deixasse de gostar de ti.
- Não sou como tu.
- Elas não têm imaginação nenhuma – disse Ana. – Por isso julgam que bastam para encher uma vida quando há tantas outras coisas (...) Só o tocar naquela erva e esmigalhar entre os dedos as cascas dos caracóis amarelos, e sentir escorrer pelos dedos os grãozinhos de areia castanhos e brilhantes, sentir a própria areia seca e quente. E ver os carris escuros, azulados e frios, aquele som agudo, o vapor a sair dos respiradouros, e que mais?... nem sei.
- E és tu quem diz isso, Ana...
- Ou este sol, com aquelas faixas mais escuras... quem sabe o que haverá lá por detrás... Ou mesmo os aviões do professor Manjamanga, ou uma nuvem, ou cavar na terra e encontrar coisas, ou ouvir uma música.
Ângelo ouvia tudo de olhos fechados.
- Dá-me a Rochela. Tu não gostas dela.
- Gosto, mas nada mais posso fazer, ainda que o resto não contasse. Posso deixar-ta, se quiseres, mas ela é que não quer. Quer que eu passe o tempo a pensar nela, que viva em função dela.
- E mais? Conta-me tudo o que ela quer.
- Quer que o mundo morra e apodreça à nossa volta. Quer que tudo desabe e nós dois fiquemos (...)
- Mas tu dá cabo dela...
- Querias ser tu a dar cabo, não?
- Eu não lhe faria mal. Nem lhe tocaria; o que queria era beijá-la e tê-la nua sobre um tecido branco.
- Olha que elas não são assim (...) não se apercebem de tudo o que há para fazer.
- Mas o que há para fazer?
- Estendermo-nos no chão, em cima da areia, com uma leve aragem e a cabeça vazia, ou então começar a andar, ver tudo, fazer mil e uma coisas, casas de pedra para as pessoas viverem, dar-lhes carros, luz, tudo o que as pessoas deveriam ter para poderem estar sem fazer nada, deitadas ao sol, na areia, com a cabeça vazia, e dormir com mulheres.