George Clinton
- Já não acreditamos em nada – disse Ângelo – Eu, pelo menos, só quero saber da Rochela.
- Essa Rochela é um nojo – disse o abade – Quando podia muito bem acomodar-se ali com a amiguinha do Atanágoras... Que coisa atroz, sempre à volta daquela mulher toda mole.
(...)
- Gostava tanto de dormir com a Rochela – disse Ângelo - Amo-a intensamente, perseverantemente, desesperadamente. Talvez lhe dê vontade de rir, mas é assim mesmo. (...) Eu quero é a Rochela. Já é tempo de tê-la só para mim... Cada vez está mais estragada. Os braços já ganharam o jeito do corpo do meu amigo, os olhos já não falam, descai-lhe o queixo, os cabelos começam a ficar gordurosos. Está, de facto, mole, mole como um fruto que principia a apodrecer; tem mesmo aquele cheiro a carne quente, do fruto já meio podre. É isso que me atrai.
- Deixe-se de literaturas – disse Joãozinho - A fruta podre é uma porcaria. É viscosa. Rebenta. (...) Abra-me esses olhos.
- Estão bem abertos. Vêem-na sair todas amanhã do quarto do Ana. Toda aberta, toda húmida daquilo tudo, toda quente e pegajosa, e é precisamente isso que me apetece. Apetece-me pôr-me debaixo dela, deve ser melhor que um molho.
- O que está a dizer é nojento – disse o abade – É Sodoma e Gomorra, mas em menos normal, ainda. Que grande pecador me saiu!
- Deve cheirar a algas cozidas ao sol, na água do mar – disse Ângelo. Quando aquilo começa a decompor-se... E fazer aquilo com ela é o mesmo que fazê-lo com uma égua, há lugar à vontade, imensos recantos e aquele cheiro a suor, a não lavado. Gostava que não se lavasse durante um mês, que fosse todos os dias para a cama com o Ana, até ele se cansar, e apanhá-la então à saída. Ainda cheia.
- Isso já é demais – disse o abade – Sempre me saiu um grande porcalhão.
Ângelo olhou muito sério para o abade Joãozinho.
- Não pode perceber. Não percebeu nada. Ela está fodida.
idem