INDYvagações amadoras sobre Imprensa (caderno 3)
O que segue por aqui abaixo tem palavras a sobrar. Não são lágrimas de crocodilo; talvez rissóis de velório. Um pouco fora de prazo, convenho. Talvez tudo já tenha sido dito. Resta-me tentar abordar o assunto sob um ponto de vista o mais particular possível.
Aqui há uns anos, fiquei triste quando regressei de férias a casa dos meus pais e descobri que tinham deitado fora umas caixas com quase todos os cadernos 3 dos dois primeiros anos d’O Independente. Disseram-me que «criava muito bicho...».
Não tendo guardado o jornal propriamente dito (caderno 1?), não vou aproveitar aquela expressão para fazer um trocadilho homofóbico de gosto mais do que duvidoso.
Os bichinhos da madeira, esses sim, tal como algumas dezenas de milhar de leitores que devoraram o papel e tinta d’O Independente, tinham definitivamente bom gosto. Quase todos o referiram: o grafismo e a linguagem inovadores em Portugal, e ainda o corte com a herança cultural francófona até aí predominante. Outras vantagens teria, decerto. Estas foram as que me levavam a comprá-lo. Encontravam-se no tal caderno 3.
O resto do jornal, ou seja, o rascunho da agenda política de Paulo Portas, ou seja, falácias muito bem articuladas, ou seja, agitprop maoista no tom, gaullista (churchillista soa pior) na intenção, tudo isso era tão relevante enquanto jornalismo, como o CDS-PP o é no quadro político desde então. Seja: chega de tristezas.
É consensual que pessoas brilhantes escreveram e desenharam lá, naqueles dois primeiros anos. Da maior parte perdi o rasto. Outros continuaram até hoje, alguns deles no antigo alvo a abater – O Expresso. Dois exemplos dos meus preferidos: Rui Henriques Coimbra está ainda melhor do que antes; Paulo Nogueira, infelizmente, julgo que só tem debitado breves apontamentos sobre livros recém-publicados; ainda assim, dos mais legíveis entre alguns catedráticos que parecem só escrever para amigos e inimigos. Também gostava de saber o que tem feito Nuno Miguel Guedes, para além do seu blog. Os últimos ecos que me chegaram demasiado tarde sobre Esteves Cardoso tiveram a ver com aquele episódio bizarro do blog que era dele mas, afinal, não era. Paulo Portas parece que continua a banhos e ainda bem para todos, começando por ele próprio.
Tendo reparado agora que Pedro Mexia também por lá passou, torna-se impossível afirmar com exactidão «desde o início da década de 90 até agora, mais ninguém digno de nota escreveu n’O Independente», mesmo porque não devo ter comprado tantos nºs quantos os anos que passaram desde então; e os que li nunca repetiram a impressão dos primeiros dois anos.
A despropósito, atrevo-me a estabelecer uma comparação completamente abusiva entre o percurso de Pedro Mexia enquanto blogger e a evolução do jornal para ilustrar esta divergência de resultados: enquanto P.M. terá trocado gradualmente a irreverência, a vivacidade e entrega que demonstrava no Dicionário do Diabo e n’A Coluna Infame, pela contenção, pelo privilégio da forma e talvez pela procura do merecido reconhecimento no restrito meio das Letras portuguesas, O Independente começou irreverente e esforçou-se por assim continuar.
A desvantagem, creio, é que o domínio da forma só terá sido privilegiado durante a fase inicial. A soma de talentos também não mais se repetiu. Pior: a credibilidade (ou aquele conceito medonho, mas tão sobrevalorizado entre nós, da respeitabilidade), enfim, o reconhecimento público e do meio também rarefeito da imprensa portuguesa, nunca foram atingidos. Pelo contrário, essa curva foi desenhada a descer pelo que não me resta senão valorizar, não a matriz ideológica de fundo que era deprimente e anacrónica, mas a persistência dos que neles trabalharam e investiram durante tantos anos.
Afinal, nos últimos 15 anos, para além d’O Independente e do Público (as revistas de casa-de-banho não são para aqui chamadas e os gratuitos também não), nada que possa ser considerado um marco aconteceu na imprensa portuguesa.