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INDYvagações amadoras sobre Imprensa (cad. 2)

Sempre estranhei que algumas pessoas da minha geografia política não tenham compreendido o que representou O Independente. Dessa ignorância resultou a aceitação generalizada que o discurso típico de esquerda é aborrecido, escrito de um modo seco, limitado à enumeração inócua dos pés de barro do capitalismo. Existem excepções, decerto. Assim de repente, os mais conhecidos: Luís Rainha, Miguel Vale de Almeida, Rui Tavares, Ricardo Araújo Pereira e Daniel Oliveira. E não recordo muitos mais.

Admita-se publicamente: Há muito mais pessoas conotadas com a direita a escrever bem.
O ponto de viragem aconteceu no final da década de 80. Se O Independente foi o ninho-fábrica-fonte de inspiração, certo é que, antes e depois dele, nunca naquele inefável território denominado «A Esquerda» se conseguiu reunir num único sítio tantos escribas e artistas gráficos detentores daquele atributo, quase especiaria, o qual, mais do que humor, traduzo à pressa por «leveza/frescura» e que dá pelo simples nome de «graça».

Para quem detém um edifício ideológico coerente (não o meu caso, decididamente), a «graça» pode parecer «graçola» inconsequente de miúdos. Bem se pode assobiar para o ar o estribilho «cantas bem mas não me encantas» que a maior parte dos consumidores de informação, residentes num baldio ideológico, continuará a preferir ser seduzido pela «graça».
É lamentável que a esquerda, de um modo geral, nunca tenha entendido essa particularidade da natureza humana. A Capital bem tentou mas não funcionou; entre outros factores que não vêm ao caso, porque não aprofundou suficientemente o corte com o passado, nem com a concorrência. Agora já é tarde, e não só para projectos de imprensa conotados com a esquerda.