numa manhã de Verão
Há meia dúzia de anos, nesta mesma casa, eu e um casal de amigos acordámos primeiro e, para não perturbar o sono dos restantes, fomos tomar o pequeno almoço no quintal. Pouco depois, uma cobra preta vestida de losangos amarelos, com uns esguios 70-80cm, rabeava à nossa frente. Ficámos sem saber o que fazer.
Sugeriram-me que a esmagasse com um valente pedregulho. Eu, que só consigo matar mosquitos que não me deixam dormir - sim, também como animais e vegetais mortos por desconhecidos - respondi «Calma lá. É preciso enxotá-la daqui». O problema é que o bicho não se assustou com uns paus agitados à sua frente e ficou ali, quase de mãos nas ancas, naquela pose daqui-não-saio-daqui-ninguém-me-tira.
Ainda tentei arrastá-la com uma sachola média mas a intrusa era teimosa e não dava mostras de querer desandar.
Lembrei-me então de acordar Eunice para lhe perguntar onde haveria uma enxada grande que pudesse servir para transportar o raio do bicho para fora do quintal.
- Ha?
Meia a dormir, ela levantou-se, resmungando nada que se entendesse para além do desconforto por ter sido acordada. Já no quintal, pegou na sachola e, em três ou quatro golpes decididos, decapitou a infeliz diante da admiração dos nossos amigos e do meu escândalo:
- Ei! Isso foi para quê? A ideia era...
Ela sorriu, disse «Oh José...», deixou aquelas reticências no ar e foi-se deitar.
O resto do dia foi igual aos outros. A meio da noite, lembro-me de ter acordado e não a ter reconhecido. Fui ver televisão para o sofá.