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ÚLTIMA HORA: MARX , AFINAL, ESTÁ VIVO E RECOMENDA-SE

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Tomando como pretexto a notícia da capa do CM de anteontem, é impossível não recordar situações semelhantes do passado recente. Coincidências, sem margem para dúvida. Sempre que este Governo, no âmbito da reforma do Estado e do emagrecimento da Função Pública, anuncia que vai implementar medidas para diminuir os privilégios de determinado grupo profissional, nos dias seguintes chovem nos jornais e telejornais dezenas de notícias com o intuito demasiado óbvio de denegrir o grupo profissional em causa. Hoje, o alvo a abater são os professores, como já foram os magistrados e os polícias. Amanhã... venham os próximos.

À vista desarmada, nada a apontar aos jornais que alinham nestas campanhas governamentais. Há pouco mais de uma década, quando os media não estavam concentrados em tão poucas mãos, o costume era exactamente o oposto. Muitas medidas governamentais eram atacadas sobretudo por serem isso mesmo, do Governo, o que, diga-se de passagem, não favorecia a implementação de quaisquer medidas, fossem elas positivas ou negativas.

Desde então, os três ou quatro grupos financeiros que controlam, não só os fluxos produtivos e de capitais, mas também os principais orgãos de difusão de informação, abriram os olhos e convenceram-se que teriam de ser muito mais criteriosos na escolha das pessoas para as direcções e chefias de redacção dos jornais e televisões.
No lugar deles faria o mesmo. Para além de os escolhidos terem de saber como garantir lucros, conviria que fossem da minha confiança política.

Quanto a isto, nada de novo ou surpreendente. Ao que parece, quando ainda existia o tal Bloco dos países de Leste, a confiança política era uma condição sem a qual nenhum indíviduo chegaria à chefia duma redacção ou à gestão duma fábrica, da mercearia da esquina, etc.
Não surpreende também que os partidos que chegam actualmente ao poder se organizem desse mesmo modo que tantas provas de sucesso tem dado lá fora mesmo depois do colapso do tal Bloco.

Agora já não se fala muito disso, talvez por já ser aceite como natural, mas, no início do 1º mandato de Blair, os jornais britânicos de vários quadrantes noticiavam diariamente a contratação massiva dos chamados spin doctors - assessores de ministros encarregues de municiar os media com avalanches diárias de informação, servindo o objectivo de manter o Governo ao abrigo da erosão que uns media naturalmente críticos produziriam.

Por cá, há uns largos meses alguém somou uns números do Diário da República e contou 3.200 e tal assessores que este governo terá contratado desde o início de funções.

Por cá também mas na blogosfera, num post muito divertido leio a seguinte citação do ExpressoOnline:

cerca de 70% das notícias publicadas nos jornais portugueses têm origem nas agências de informação ou nos gabinetes de Imprensa”.

Num quadradinho muito discreto do jornal Público de anteontem, li também o resumo dum relatório da Federação Internacional de Jornalistas que explica o recente enfraquecimento dos media enquanto “cães de guarda da sociedade” com os baixos salários e condições de trabalho precárias, aumento de freelancers, trabalhadores a prazo e temporários que representam já 30% da força de trabalho das organizações membros daquela federação.

Olhemos então melhor para esta conjuntura.
Num clima de poupança de recursos e de despesas, porque não concluir: com tanto assessor no governo, para que são precisos jornalistas? Desemprego com eles! Se os objectivos políticos e económicos do Governo são os mesmos das confederações patronais, para quê a duplicação de esforços? Acabe-se com o Governo e restaure-se o feudalismo ou então, acabe-se com as confederações patronais e instaure-se um regime de partido único. Tudo ficaria mais simples e muito mais barato.

Assim, dentro de alguns meses, no caso de os spin doctors decidirem perseguir a classe privilegiada dos trabalhadores da recolha de lixo, ninguém irá abrir a boca de espanto se, na 1ª página dum jornal, surgir o título:

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(agradecimentos ao Correio da Manhã, Expresso, Público, blog Margens de Erro e ao meu colega de blog que editou as imagens)