exposições mediáticas

Ontem, quando regressava a casa, no banco do comboio onde me sentei, alguém se esqueceu dum livro com uma biografia da família Kennedy. Um acaso, claro. Para encontrar algo mais do que uma coincidência, teria de apelar à minha curiosidade pelo assunto «A decadência da Família» ou à estranha atracção que famílias decadentes sempre tiveram por mim.
Aberto o livro, levei logo com aquela estopada da crise dos mísseis de Cuba, ameaça daqui, bluff dacolá, JFK a dizer «eu faço» e Krutchev «eu aconteço», mais aquilo que toda gente julga ficar a saber através dos arquivos do Canal História.
Se a viagem não fosse tão curta, do bocejo ao sono seria um instante. Do ronco ao sonho, ainda menos. Neste, JFK não seria exactamente JFK. Krutchev, sim. Teria o mesmo aspecto gorduroso e inchado sabe-se lá de quê e acabaria por confessar, ameaçando, ou ameaçaria, confessando que a sua intenção era fundar um kolkhoz no Utah porque a sua queda pública por lolitas e natashas apenas servia para esconder a sua atracção secreta por rapazinhos mórmons. Tudo reminiscências dos anjinhos loiros das igrejas da sua infância.
JFK não estava nem ali. Dentro do seu fato, encontrava-se Spike Lee a trautear o refrão dos Public Enemy «hem? show me what you got. hem? show me...». Um televisor ao fundo ficaria em loop infinito numa cena só de «Dirty Harry». Lá teria eu de telefonar ao meu amigo da TVCabo. E assim por diante até acordar no Cais do Sodré. Isto de ter que trabalhar para comer não está com nada.