estranha declaração de amor
Há uns dias, surgiu aqui um par de posts que relataram dois episódios em que foi interveniente a Eunice. Distracção minha: não a apresentei. Colmato agora esse lapso. Eunice é a minha companheira de longa data. Quase 13 anos. Como é natural, não se chama exactamente Eunice mas deveria. De resto, quando quero irritá-la, chamo-lhe isso mesmo, ou Princesa dos Cárpatos, ou dos Urais, o que não é um disparate assim tão grande, visto a sua aparência se enquadrar no tipo físico que costumo associar às eslavas não-loiras: alta, magra, elegante de alto a baixo, com e sem roupa, excepto no dedo grande dos pés cuja terminação é demasiado quadrada para eu conseguir não implicar quando preciso dar-lhe troco.
Sendo aparentemente de extremo mau gosto apresentar deste modo a própria companheira num sítio semi-público como este, quem a conhece pessoalmente não diria tanto. É que, para além das qualidades físicas que referi, a Eunice detém um sentido de humor clínico, arrasador. Com essa arma, tem conseguido diminuir o tamanho do meu nariz quando ele cresce em demasia e aumentá-lo quando se ele encolhe como o de certos extraterrestres. E isso é bom, definitivamente bom. Equilibra-me. Impede-me de sair para a rua ou vir para aqui fazer exercícios de autocomiseração, self-deprecating como já ouvi dizer, tão em voga em círculos mais líricos do que aqueles que gosto de frequentar.
Deve ser também por isso que, há muito, prefiro a música de americanos adultos à maioria das bandas de inglesinhos borbulhentos que desde a fase inicial dos Beatles e ainda antes do Calimero, pouco mais sabem cantar do que o chamado teenage dread: «poor me, poor me, she left me, she doesn't care about me, i'm so lonesome, and on and on and on». Arre que já não há pachorra. Uma noite na companhia de Eunice e a Brit Pop deixaria de existir. A felicidade que não seria desconhecer também o cinismo blasé de Franz Ferdinand, Kaiser Chiefs, Bloc Party e afins.
É certo que Morrissey escaparia, mas nem quando ele se lamenta, deixa transparecer a ideia que apenas pretende seduzir as pedras da calçada. Se está triste, as suas lágrimas não apresentam pingo de cebola. Suspeito que o sotaque de Morrissey decorre dum acaso. Suspeito igualmente que Eunice me abandonaria se conhecesse pessoalmente Morrissey. E depois, quem riria de mim? Quem sorriria para mim? Oh poor me.