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«é a cultura, estúpido» - o futuro dos debates

Quando pressentem o cair da noite, os pássaros do lado de fora da imensa vidraça dos Jardins de Inverno dão voltas e mais voltas, algumas delas fabulosas tangentes ao catavento do prédio defronte. E nem assim aquele catavento se move. Parece que desistiu de esperar pelo vento, rendido diante da madorra lisboeta. Manuel Graça Dias, não. Interrompeu, discordou, espicaçou. Ao contrário do catavento, estava vivo.

Julgo existir esta crença entre pessoas inteligentes: num debate, são de evitar aquelas constantes interrupções e picardias que costumavam acontecer em grande parte dos debates dos anos 80 e 90 (cujo paradigma actual é o programa «Prós e Contras») e dos quais nada mais resulta/va do que ruído.
Ora esse cenário fica situado algures nos antípodas do que tem acontecido na última 4ª Feira de cada mês, nos Jardins de Inverno do Teatro de S. Luís. E ainda bem, pois é uma absoluta perda de tempo assistir a interrupções abusivas, altercações sem fim, consecutivas faltas de respeito básico em que todos saem a perder: ainda mais do que o público, a imagem pública dos intervenientes.

Parece então que o modo civilizado de debater é cada um dizer o que pensa sem ser interrompido, rodando o direito à palavra por todos. O óbice é que, se os pontos de vista de cada um não forem minimamente contraditórios, ao fim de meia dúzia de voltas nesse passa-palavra, o ritmo da conversa e a atenção do público afrouxam. A razão parece-me óbvia: isto não é um debate. Exagerando um pouco: são tempos de antena individuais emitidos a partir duma mesma mesa. No máximo, uma amena conversa de Café entre amigos com ideias algo semelhantes sendo certo que, neste contexto, não é suposto haver um público defronte. Mais natural seria que a conversa amena ocorresse numa mesa no meio das outras.

Pois neste último debate, «O Futuro das Cidades», ao fim de algumas dezenas de minutos de tempos de antena sucessivos, Manuel Graça Dias deve ter-se cansado do tom demasiado cinzento e começou a manifestar de forma clara o seu desacordo com alguns pontos de vista de Daniel Oliveira e Delfim Sardo e então, pela 1ª das 3 vezes que lá estive, aconteceu debate. O facto de cada um dos 3 intervenientes ter ideias muito próprias e diferentes entre si foi, creio, determinante.

Imagino que não deve ser fácil conseguir reunir num mesmo final de tarde um grupo de convidados com o qual, à partida, esteja garantido um debate que acabe por não ser morno. Existem demasiadas premissas incontroláveis, começando por ser impossível prever como vão interagir os convidados.
Contudo, bastaria que estes interiorizassem a ideia prévia que um debate, não sendo nunca traduzível por “peixeirada”, é suposto ser algo mais acalorado do que a tal sucessão de “tempos de antena individuais”, e talvez começassem a aparecer no público mais do que as habituais vinte e poucas pessoas.
Este factor, por si só, acaba por desmotivar os próprios convidados. Transmitida essa sensação ao público, ao fim dum incerto número de sessões demasiado mornas, cada vez menos irão voltar.

Pode parecer ingrato da minha parte apresentar as coisas deste modo. Afinal, nunca dei o meu tempo por perdido. Ao sair de cada uma destas 3 sessões a que assisti, tive a noção clara de ter ficado a saber inúmeras coisas que desconhecia à entrada. Ainda tenho a certeza que é um privilégio sem aspas poder ouvir, sem nada pagar por isso, especialistas de várias áreas discorrerem sobre uma infinidade de assuntos que têm sempre ultrapassado, inevitavelmente, o âmbito inicial de cada sessão.
O meu receio é justamente deixar de ter essa oportunidade porque existe, creio, o risco de mais uma iniciativa válida ir esmorecendo até que alguém decida que já não vale a pena o esforço.

Sem poder ter a certeza se foi casual ou intencional, nesta sessão, já ficou no ar a impressão de se ter tentado contrariar a referida tendência de desvanecimento, ao convidar intervenientes com maior potencial de gerar discordâncias.
O futuro destes debates? Logo se verá depois das férias anunciadas.