Não é que isto interesse a mais alguém para além de mim e dos que me são próximos, mas hoje comecei a trabalhar, i.e. a caminhar, às 10:00 e só parei às 17:00. Aqui, cometendo mais uma inconfidência comum em blogues umbiguistas, registo que quem me poderia providenciar algum conforto, i.e. uma simples mas bem-intencionada massagem nos pés, só vai chegar mais logo.
Daí que a primeira coisa que fiz ao chegar a casa foi abrir o próprio blog (sim, mais um indício de autismo virtual) para que aquela belíssima música do post de baixo (alguém terá reparado nas flautas?... não creio... já quase ninguém perde tempo com o todo, quanto mais com detalhes) me entrasse nos tímpanos e fosse por ali abaixo até às minhas extremidades inferiores, comprovando o que dizem homens e mulheres de bata branca: que para além da mioleira é nas patas que se concentra uma maior quantidade de ramificações nervosas.
Seja isso verdade ou mistificação paracientífica, o facto é que funcionou. Por esta e por outras, vai ser sempre difícil entender quem privilegia os estupefacientes para conseguir um efeito nunca semelhante, apenas vizinho distante da música.
Há quem não vá muito à bola com música? Acordem no corpo um modo de ouvir (fica aqui o mp3 para quem não sofrer de pruridos legais ou futebolísticos).
Preferem palavras? Nunca pior, adormeçam no corpo um modo de ver, neste caso o de João Miguel Fernandes Jorge:
Uma fotografia de Ed van der Elsken,
de que não sei a data e que não voltei
a ver O Amor na Margem Esquerda
mostra um oriental muito novo.
Fustigado pela abundância do sonho,
sob o rumor da subterrânea corrente do
desejo, adormeceu a uma mesa de café.
Rosto de flor de cerejeira
em repouso sobre o vidro. As pálpebras
fixadas no virar e voltar do sono, que
é como quem se sente diverso no espelho
dos cafés. Sobre o tampo da mesa, bem
junto à face, entre um copo e um cinzeiro
com duas amarrotadas notas de 100
francos, uma folha de papel, em notícia,
dizia
Para ir fazer amor
eu preciso de 450Frc.
Aceito todas as dádivas.
Não me acordem
No rebordo do cinzeiro a palavra cigarra.
Também ele cantou o abrir dos sentidos ao
amanhecer. Também ele cantou as coisas
mínimas como se fossem pertença de um
gozo pleno e infindo.
A cada jogada, fora ou dentro do seu sangue,
surgia uma cidade desconhecida com
novas praças e ruas, novas estátuas, fontes,
as trevas de um jardim.
Agora, de olhos cerrados, espera o brando
pousar da última nota, o latir caído da derradeira
moeda
para diminuir a distância e
adormecer no corpo um modo de ver.
Seja, adormeçam ou acordem o que bem entenderem. Cá por mim, enquanto sentir uma caixa de ritmos que palpita debaixo da pele, continuarei a perguntar:
Qual debate televisivo, sexo tântrico, educação sexual, viagra, prozac,

tetrahidrocanabinol, benzodiapinas, opiáceos, alcalóides, mdma,

semiótica, óptica, cientologia, aromaterapia, lipo-o-que-for,
acupunctura, feng shui, reiki, IV reich, calvin klein, gucci, prada,
orçamento geral do estado, neoliberalismo, reuniões do G-8,
51 padres nossos, 35 avé marias, 493 sharias, o diabo a 7,

qual carapuça? Massagem, sras e srs, M-A-S-S-A-G-E-M.

Música, palavras, os dedos dos que vos são mais próximos, tanto faz, mas toquem-se de quando em vez. Passe a lamechice aparente: sintam-se, sintam o outro sem favor nem rancor. O resto, o melhor de cada um, virá depois.