o Jorge de Sena é tão sério, caramba
-
- … entornamos um pifo valente, entramos pelo Gambrinus dentro e colorimos aquela gente cinzenta com meia dúzia de vómitos distribuídos democraticamente.
-
- Não, pois não?

(completo)


De volta ao Luís, pois este post é sobre ele, servindo também o objectivo da definição por contraste, como numa sala de revelação de negativos. Ele diz-se de direita. Eu encontro-lhe mais semelhanças com os revolucionários do início do século passado, só que ele ainda não o sabe (e mal o descubra, insultar-me-á). Um dia, dei por ele a falar comigo como se eu fosse um adolescente retardado e ele tivesse cerca de 70 anos. Disse-lhe isso no momento, o que não o impediu de continuar no mesmo tom, alheado (ainda bem) da década que nos separa no B.I. Outro aspecto que nos afasta tem a ver com ideais de paisagem: o Luís zarpou de Lisboa, rumo ao interior, perseguindo uma ideia de família e comunidade a que tenho conseguido escapar.
Onde se cruzam então os passos de ambos? Talvez na renúncia da artificialidade subjacente ao discurso típico de uma incerta classe média, na aversão à respeitabilidade e tiques adjacentes: «somos todos tão bem educados, tão cultos, só lemos os livros recomendados, vemos os melhores filmes, podemos partilhar de quando em vez alguma sinceridade com os da nossa capela, mas sempre com um certo panache, e nunca-mas-nunca-mesmo ficamos completamente à vontade com desconhecidos; temos pavor da pobreza e só confiamos nos nossos iguais ou em gente da alta, porque nos podem ser úteis».
Nunca encontrei essas peneiras nem o tal distanciamento blasé nas fotos do Luís. Mesmo quando deixa as pessoas fora da objectiva – o que não é frequente – não resultam daí naturezas mortas nem exercícios de vacuidade formal. A perspectiva raramente é neutra. Uma subjectividade forte ressalta das imagens e impõe-se. A intenção de algumas parece ser acordar olhares ainda semicerrados pela indiferença pós-moderna que tarda em morrer neste país. Traduzidas em palavras, parecem dizer-me: «Ei morcão (poderia ser «biltre» ou «palhaço»), isto é mesmo para mexer contigo!». Conseguiu, o grande filho de um cão perneta!


De resto, nem é necessário recorrer aos livros para encontrar uma noção semelhante. Se a escolha de parceiros sexuais dependesse apenas do factor embalagem, nove em cada dez homens e mulheres mediterrânicos prefeririam loiros e loiras, com altura e simetria bastantes no desenho da carne e do osso.
Para além do futebol, da Genética e do princípio fascista da sobrevivência do mais forte, a graça de tudo isto é que, em termos da capacidade de criar beleza, a ordem das coisas, com os seus desequilíbrios e compensações, apresenta uma dinâmica no mínimo democrática – a embalagem do criador não determina por si só a beleza do objecto criado.
![]() |
(Arthur Lee & Love, Glastonbury/2003 - playlist do
concerto disponível na tv do costume desde 6.6.08)
Ignoram? Não sei se ignoram. Talvez olhem para o lado para não ver: se houver algo sublime neste mundo, está decerto escondido na música, numa ou noutra curva de alguns corpos, talvez na coisa concreta que revela o sujeito.
Arrepio? Arrepio e pele, vá que não vá. O que daí resta soa-me a distracção para sobreviver ao bocejo.
![]() | o melhor blog de informação sobre música e assuntos adjacentes; li os últimos quatro meses de enfiada e não encontrei um único post mau, um único com o qual não tivesse aprendido algo; nem em inglês tenho encontrado algum que se aproxime no rigor e nas escolhas musicais; nada a ver com o tom de press release das editoras que tem caracterizado demasiados posts de Nuno Galopim; gostava que existissem mais blogues de profissionais da informação tão úteis quanto este. |
até à última mudança,o meu layout preferido(logo a seguir a -273,15º);links interessantes e o tom, raios,aquela leveza de um discursoque eu gostaria de ter de vez em quando. | ![]() |
![]() | um template desgraçado (em termos gráficos, consegue ser pior do que o Arrastão) serve de fundo a assuntos e imagens raras e links para sítios surpreendentes. |
poesia recente,própria e alheia;faltam-me sinónimosde frescura. | ![]() |
![]() | a bem dizer, nestes 3 anos e picos, nunca tinha perdido tempo a conhecer este blog (apressadamente, tinha-o incluído naquelas duas dúzias de blogues conhecidos por serem de referência quase obrigatória, mas cujos assuntos e tom costumam ter pouco a ver comigo); não tão bom quanto o autor parece pensar quando se vitimiza (!); muito longe de ser tão mau quanto alguns têm sugerido; com uma notável diversidade de registos (política, poesia, história, astronomia, participação dos leitores melhor conseguida do que através de caixas de comentários); chega a aflorar a comédia quando se lembra de ensaiar justificações para a guerra no Iraque; gostava apenas que o espaço entre as linhas fosse um pouco maior para que a leitura dos posts mais longos se tornasse mais acessível. |
ao contrário dos anteriores, não se trata de uma descoberta recente; contém a coluna de links que mais utilizo; ideal para apreciadores de planetas exóticos. | ![]() |
Entremeadas, surgiram a propósito fotos de outro Luís, por também ele pressentir melhor do que eu o que é ser português. Ali em cima, antes de tudo, fica alguma música. Mais abaixo, no meu estômago, medra a saudade de uma feijoada.
- Mãe, tu não lês blogues, pois não?


© Luís Olival

© Luís Olival

© Luís Olival

© Luís Olival

© Luís Olival

(adaptação destruição de um original de Raim)
A intensidade ou pior. A memória de um último beijo. Uma rede de arame de permeio e os pés dela numa poça de água.
A pressa desta gente ao fim da tarde. Correm para um comboio como se fosse o último. Filhos à espera, talvez. Deve ser bom ter pressa.