eugénio de andrade por artur bual


A Eugénio de Andrade,
por «Véspera da Água»
Esta água vesperal que sobe em ti
e escorre em regos por areias campos
de verde negro crespas cabeleiras
levando flores vai e estrias brancas
do que tão chamas cal no ardor de tê-las.
Rumor de secos ramos e de olhares,
visões que os dedos têm tocando os troncos
e os caules duros por momentos longos,
correndo vai essa água transportando-as
a um mar que ondas recurva silenciosas.
Descendo pelo tempo que o desejo
anseia seja uma demora tensa
ante um passado a dissolver-se agudo –
essa água véspera de ser-se é tarde
pousando na paisagem das palavras.
Silêncio de só gestos que elas dizem
menos que dizem lembram ou contentam
na solidão sem rosto da nudez –
esta água corre escorre pedra em pedras
e sobe em ti como ervas sobre a terra
em que ninguém nos fita ou já nos vê.
Jorge de Sena, 1974
(in «Aproximações a Eugénio de Andrade», 2001
coord. José da Cruz Santos; dir. gráf. Armando Alves)

A Eugénio de Andrade,
agradecendo «Até Amanhã»
Lembras-te da primeira vigília que fizeste,
à espera, trémulo, da madrugada nova?
Deu o meio-dia, tilintava o oiro,
e anoiteceu-nos como se a nossa amada
fosse a descer à cova.
Depois,
tu esperaste sempre a madrugada,
mas sempre a noite paria nados-mortos,
sempre a esperança espancada cada dia:
frágil, de luz e de cristal, a tua fé
embaciou-se de melancolia…
Mas tu esperas ainda
- porque os teus versos ainda são
os do rapaz maravilhado
pela afogueada cor duma romã.
E vem dele a saúde a quem se cruza
contigo, no branco litoral:
«Até amanhã».
José Fernandes Fafe, 1957
(in «Aproximações a Eugénio de Andrade», 2001
coord. José da Cruz Santos; dir. gráf. Armando Alves)

Apeteceu-me notícias. Passei os olhos pelas edições online de vários jornais. Não havia notícias. Nessa ausência, regresso a «Aproximações a Eugénio de Andrade», livro/colectânea publicado em 2001, com 35 textos e 35 imagens assinados por nomes representativos de vários momentos da literatura e artes plásticas portuguesas do século passado.
Da segunda vez que o li, com o intuito de recolher o que mais me agradou, distraí-me tentando deduzir os sentimentos que cada um dos autores poderia albergar relativamente a Eugénio de Andrade. Simplificando, nalguns encontrei cuidada reverência; noutros, diversos graus de familiaridade; em quase todos, um hipertexto afectivo que acaba por ser natural num livro que, apesar da sobriedade do título, resulta em algo muito próximo de uma homenagem. Ainda assim, deparei com dois aparentes desvios a essa tendência. O primeiro, da autoria de Manuel Alegre:
Há em Eugénio de Andrade
uma tensão extrema
substantivos e verbos trazem os elementos
respiração da terra no poema
a vida intensa a breve eternidade
e as sílabas do sul entre o verão e os ventos
Passe o atrevimento de mero leitor, em face da quantidade atroz de lugares-comuns que quase todas as palavras encerram, ocorreu-me que talvez se tratasse de uma dedicatória de encomenda, apresentada sob a forma de poema manifestamente mau. No segundo desvio, qualitativamente nos antípodas do anterior, Manuel António Pina descobre, de modo singular e aparentemente ácido, a criança que prevalecia em Eugénio de Andrade:
No sítio mais fundo
do teu nome
fala o que não se pode dizer.
Que ninguém chame pelo teu nome,
que ninguém acorde
o teu nome que dorme.
Porque é o nome do homem
e o do menino,
o da vítima e o do assassino.
«A minha sogra é um boi»: salvo erro, chegou a haver uma canção, ou uma banda, com essa frase, ou semelhante, por nome. O simples facto de se tratar de uma memória incerta leva-me a pensar que deveria estar mais atento à música portuguesa. Por outro lado, não tenho qualquer dúvida que a velhota de rádio na orelha, sempre à janela no prédio da esquina, é um peixe-avião. Talvez por isso não voe. Gostava um dia de vê-la bater as as asas por aquela janela fora.
Obs: do pouco que conheço da música que se tem feito recentemente por cá, para além dos Peixe-Avião, que ainda não terão diluído suficientemente a influência dos Radiohead, mas parecem ter dedos para voar mais alto, de assinalar também vários nomes publicados pela Merzbau, e um ou outro projecto de imensas nertlabels que vão sendo divulgadas em Beats Play Free.
O cão? Encontrei-o à solta, meio perdido, no google images. A música é de umas moças britânicas que já tocaram em Portugal no Verão de 2007 e deixaram de fazê-lo em Dezembro desse mesmo ano. Chamavam-se Electrelane. Não primavam pelo virtuosismo; antes por uma intensidade, melhor dizendo, por variações na intensidade de cada música; intensidade essa conseguida, sobretudo, pelas modulações, por assim dizer, dramáticas do órgão. O último álbum tinha por título o pré-aviso de desistência «No Shouts, No Calls». «Invisible Dog» é o nome da música a tocar por baixo do cão com aqueles olhos terrivelmente expressivos. Parecendo que não (os últimos dias têm sido tão aprazíveis, caramba), isso deprime-me. Isto também: um olhar triste entre as flores.

Amua e gane, também ladra de alegria ou protesto, luta, tropeça em fantasmas, cai, levanta-se do tapete, e, por vezes, corre em círculos atrás da própria cauda: tem sido assim este blog. Nesse sentido, não difere muito de um animal de estimação. O seu dono, no entanto, não sabe ser dono. Ultimamente, nem se dá ao trabalho de preparar refeições como dantes. Compra-as já feitas e, num só dia, publica-as com data futura, para que o cibernético animal tenha uma ou duas latas diárias com que entreter o estômago e as vistas durante a semana. Diz-lhe o dono que é mais fácil assim, que a qualidade da comida até melhorou, que não vai ausentar-se indefinidamente como no passado. Nessas promessas, contudo, o animal fareja sinais de abandono e gane, e amua, enroscando-se depois, demasiado quieto, num plataforma virtual que se confunde com o tapete.
| Alguém colocou este clip no youtube em memória de um cão chamado Poppy, falecido em 23.7.09, com uma música dos Guillemots cujo refrão repete «the best things come from nowhere / i love you, i don’t think you care». Também tem um verso que diz «now there's poetry in an empty coke can», e acaba com o coro repetindo para quem quiser ouvir «yes, i believe you, yes, i believe you, yes, i believe you». |