4.07.08

o Jorge de Sena é tão sério, caramba


- Anda lá, vamos comprar uns óculos assim tipo insecto. Depois, estendemos a mão a fingir à porta do Lux e beliscamos uns cus só para sermos corridos pelos seguranças…
-
- … entornamos um pifo valente, entramos pelo Gambrinus dentro e colorimos aquela gente cinzenta com meia dúzia de vómitos distribuídos democraticamente.
-
- Não, pois não?

how long does love stay green?
(as long as money lasts)

- excerto -

(completo)

3.07.08

«Branco no Branco»

Faz uma chave, mesmo pequena,
entra na casa.

Eugénio de Andrade, 1984

meio às escuras




Se é do meio ou, finalmente, da idade do meio, ainda é cedo para saber. Certo é que a vontade de fazer novas amizades se foi, sem deixar um impulso que seja para retomar as mais antigas. Qual a senhora que se segue? A D. Curiosidade ou a Miss Imaginação? Vou ficar atento ou nem isso.

até prova em contrário


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Não é por nada. Enfim, talvez seja: parem de enviar mpegs e pps, conas e o caralho que vos foda. Anotem p.f.: não quero saber de gracejos nem de imagens com pinta ou bolinha no canto. Sim, claro, a vida não está fácil, sorrir é preciso, dizem, mas após uma, três vidas, já exibi dentes que perdi sem morderem piada que se visse. Dois rios, cinco vales e algumas montanhas ficaram para trás, mas de que vale a soma quando o sinal mais é apenas uma cruz? Mostrem-me o que humedece as vistas de raiva, o nojo, um fígado podre se preciso for, qualquer coisa menos o sorriso grátis que me afoga. Passe a lamechice: preciso de lágrimas. Dizem que é saudável e, até prova em contrário, eu acredito.

1.07.08

Olival

Diz-se conservador. É-o num aspecto, pelo menos: tem aquela alergia aos clichés esquerdistas semelhante à de alguma direita peneirenta. Tudo muito bem, um cliché em si mesmo é já um conceito conservador, enquanto cristalização de uma ideia ou conjunto de ideias que podem, um dia, ter sido inovadoras, e ai das que, confrontadas, não reagem nem intervêm na passagem do tempo – podem acabar no programa do CDS-PP ou do PC norte-coreano.

De volta ao Luís, pois este post é sobre ele, servindo também o objectivo da definição por contraste, como numa sala de revelação de negativos. Ele diz-se de direita. Eu encontro-lhe mais semelhanças com os revolucionários do início do século passado, só que ele ainda não o sabe (e mal o descubra, insultar-me-á). Um dia, dei por ele a falar comigo como se eu fosse um adolescente retardado e ele tivesse cerca de 70 anos. Disse-lhe isso no momento, o que não o impediu de continuar no mesmo tom, alheado (ainda bem) da década que nos separa no B.I. Outro aspecto que nos afasta tem a ver com ideais de paisagem: o Luís zarpou de Lisboa, rumo ao interior, perseguindo uma ideia de família e comunidade a que tenho conseguido escapar.

Onde se cruzam então os passos de ambos? Talvez na renúncia da artificialidade subjacente ao discurso típico de uma incerta classe média, na aversão à respeitabilidade e tiques adjacentes: «somos todos tão bem educados, tão cultos, só lemos os livros recomendados, vemos os melhores filmes, podemos partilhar de quando em vez alguma sinceridade com os da nossa capela, mas sempre com um certo panache, e nunca-mas-nunca-mesmo ficamos completamente à vontade com desconhecidos; temos pavor da pobreza e só confiamos nos nossos iguais ou em gente da alta, porque nos podem ser úteis».

Nunca encontrei essas peneiras nem o tal distanciamento blasé nas fotos do Luís. Mesmo quando deixa as pessoas fora da objectiva – o que não é frequente – não resultam daí naturezas mortas nem exercícios de vacuidade formal. A perspectiva raramente é neutra. Uma subjectividade forte ressalta das imagens e impõe-se. A intenção de algumas parece ser acordar olhares ainda semicerrados pela indiferença pós-moderna que tarda em morrer neste país. Traduzidas em palavras, parecem dizer-me: «Ei morcão (poderia ser «biltre» ou «palhaço»), isto é mesmo para mexer contigo!». Conseguiu, o grande filho de um cão perneta!


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à superfície do pântano, para uso de hábeis conformados

Tudo isto se reflecte, por vezes em dramáticas elipses de concisa síntese, em Sá de Miranda, que é mais uma das ilustres vítimas, típicas da história da cultura portuguesa – dessa divisão contraditória de personalidade entre o passado e o futuro, a tradição e a revolução, o pensamento e a acção, o homem social e o homem moral, que do Rei D. Duarte a Antero, com seu ácume em Camões, vem explodir definitivamente em Sá-Carneiro e Fernando Pessoa, deixando apenas à superfície do pântano, para uso de hábeis conformados, brilhantes fragmentos de literatura.

«Reflexões sobre Sá de Miranda

ou a arte de ser moderno em Portugal», Jorge de Sena

30.06.08

die schönheit des untermenschen

Quem já leu livros de autores anglo-saxónicos sobre Genética publicados na 1ª metade do séc. 20 talvez tenha reparado numa expressão utilizada repetidamente na descrição dos habitantes do Norte da Europa: «Beautiful People».

De resto, nem é necessário recorrer aos livros para encontrar uma noção semelhante. Se a escolha de parceiros sexuais dependesse apenas do factor embalagem, nove em cada dez homens e mulheres mediterrânicos prefeririam loiros e loiras, com altura e simetria bastantes no desenho da carne e do osso.

Para além do futebol, da Genética e do princípio fascista da sobrevivência do mais forte, a graça de tudo isto é que, em termos da capacidade de criar beleza, a ordem das coisas, com os seus desequilíbrios e compensações, apresenta uma dinâmica no mínimo democrática – a embalagem do criador não determina por si só a beleza do objecto criado.

25.06.08

Junho 06 - 08

so bury me in wood
and I will splinter
bury me in stone
and I will quake
bury me in water
and I will geyser
bury me in fire
and I'm gonna phoenix

Preciso encontrar um sítio mais discreto, discreto como Setembro. Setembro nunca me deixou ficar mal. Espero que faça frio. Splinter, quake & geyser. Bem bonita esta música. Fénix, blog & uma cadeira vazia. Grande treta.

nada ter para

Não entendo este rapaz. Escrita na fronte, a certeza para onde vai; de relance no olhar, um desencanto filho da mãe. Remete para aquelas personagens que aparecem nas bodas, sem ninguém saber se vêm da parte do noivo ou da noiva. Reparamos na sua figura e chamamo-lo para junto de nós. Ele vem, enquanto vai debicando pratos e conversas, sem levar nada até ao fim. Atento ao que dizemos, faz-nos sentir especiais. Por momentos, parece que o lugar dele é ali. Pouco depois, percebemos que faz isso com todos. E não adianta perguntar de onde vem ou convidá-lo para ficar – levamos de troco meio disparate e um sorriso. Sorrimos com ele, claro, gostamos da sua companhia, mas acabamos quase sempre de mãos vazias.

é inútil comunicar

um blog é um motel

(Arthur Lee & Love, Glastonbury/2003 - playlist do
concerto disponível na tv do costume desde 6.6.08)

programa de festas

Quantos? Demasiados. Porfiam, como tantos no passado, na colagem de palavras caras com sentimentos esforçadamente sublimes, sabendo de antemão que as palavras que mais valem nunca precisaram de preço para coisa nenhuma.

Ignoram? Não sei se ignoram. Talvez olhem para o lado para não ver: se houver algo sublime neste mundo, está decerto escondido na música, numa ou noutra curva de alguns corpos, talvez na coisa concreta que revela o sujeito.

Arrepio? Arrepio e pele, vá que não vá. O que daí resta soa-me a distracção para sobreviver ao bocejo.

19.06.08

umas quantas contribuições
para uma coluna de links imaginária

o melhor blog de informação sobre música e assuntos adjacentes; li os últimos quatro meses de enfiada e não encontrei um único post mau, um único com o qual não tivesse aprendido algo; nem em inglês tenho encontrado algum que se aproxime no rigor e nas escolhas musicais; nada a ver com o tom de press release das editoras que tem caracterizado demasiados posts de Nuno Galopim; gostava que existissem mais blogues de profissionais da informação tão úteis quanto este.


até à última mudança,
o meu layout preferido
(logo a seguir a -273,15º);
links interessantes e o tom, raios,
aquela leveza de um discurso
que eu gostaria de ter de vez em quando.


um template desgraçado (em termos gráficos, consegue ser pior do que o Arrastão) serve de fundo a assuntos e imagens raras e links para sítios surpreendentes.


poesia recente,
própria e alheia;
faltam-me sinónimos
de frescura.


a bem dizer, nestes 3 anos e picos, nunca tinha perdido tempo a conhecer este blog (apressadamente, tinha-o incluído naquelas duas dúzias de blogues conhecidos por serem de referência quase obrigatória, mas cujos assuntos e tom costumam ter pouco a ver comigo); não tão bom quanto o autor parece pensar quando se vitimiza (!); muito longe de ser tão mau quanto alguns têm sugerido; com uma notável diversidade de registos (política, poesia, história, astronomia, participação dos leitores melhor conseguida do que através de caixas de comentários); chega a aflorar a comédia quando se lembra de ensaiar justificações para a guerra no Iraque; gostava apenas que o espaço entre as linhas fosse um pouco maior para que a leitura dos posts mais longos se tornasse mais acessível.


ao contrário dos anteriores,
não se trata de uma descoberta recente;
contém a coluna de links que mais utilizo; ideal para apreciadores de planetas exóticos.

10.06.08

portugueses


Não sendo nada original divulgar poetas portugueses neste dia em que "o" Luiz se foi, certo é que nunca se peca por exagero ao fazê-lo. Começo com dois: Jorge de Sena e José Miguel Silva. Sena por causa de Silva, que o sugeriu vai para uns meses, e Silva em causa própria - por escrever como ninguém e assim ter-me levado a descobrir outros poetas portugueses. Termina esta série com outros dois: Joaquim Manuel Magalhães e Rui Pires Cabral.

Entremeadas, surgiram a propósito fotos de outro Luís, por também ele pressentir melhor do que eu o que é ser português. Ali em cima, antes de tudo, fica alguma música. Mais abaixo, no meu estômago, medra a saudade de uma feijoada.
- Mãe, tu não lês blogues, pois não?

«Em Creta com o Minotauro», Jorge de Sena


Nascido em Portugal, de pais portugueses,
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte-americano, quando lá estiver.
Coleccionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.
Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria
de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações
nasci. E a do que faço e do que vivo é esta
raiva que tenho da pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria que
este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de tudo,
espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha.


© Luís Olival

«Descobertas», José Miguel Silva

Pelas águas esperavam
nossos barcos de caruma
e casca de pinheiro.

Túneis, frutos, tardes
de geleia e confissões.
Apostávamos desejos,

a braços com mundo,
o soletrado breu.
Não sabíamos do caule

que se quebra, do leite
que se entorna,
o que iria ser de nós.

Hoje já sabemos
de onde vem
este gosto de perder.

s_flat.jpg
© Luís Olival

«Os ossos do Imperador e outros mais», Jorge de Sena

Mas esse povo: o povo: esse de séculos
em terra dura e curta vida imerso?
Que sonha ou pensa? Franças e Araganças?
Se lhe tirarem a cama em que sonhar!
Se lhes não deram nunca o imaginar
mais que sardinha assada sem esperanças!
Não sonha ou pensa, apenas faz os filhos
que um dia houveram sido o povo se –
um se e sempre se de tantos séculos
e terra dura e curta vida e gente
que está por cima e há outros mais abaixo
danados só de não estarem por cima
do mesmo povo, o tal que todos amam
e lhe faz figas quando voltam as costas.


© Luís Olival

«Queixa de um Utente», José Miguel Silva

Pago os meus impostos, separo
o lixo, já não vejo televisão
há cinco meses, todos os dias
rezo pelo menos duas horas
com um livro nos joelhos,
nunca falho uma visita à família,
utilizo sempre os transportes
públicos, raramente me esqueço
de deixar água fresca no prato
do gato, tento ser correcto
com os meus vizinhos e não cuspo
na sombra dos outros.

Já não me lembro se o médico
me disse ser esta receita a indicada
para salvar o mundo ou apenas
ser feliz. Seja como for,
não estou a ver resultado nenhum.


© Luís Olival

«Acendimento», Joaquim Manuel Magalhães

[…]
Ao lado cantam os arpões.
Eu passo com as mãos no seu cabelo.
E o passado é um tempo que não passa
em cada uma das dores que me pertence
e me roubaram.

Aquele que tem fome desconhece
o alimento, pede apenas folhas,
a farinha de um vestuário com uso
e desmedido.
Mas o que sempre comeu
não sabe os caminhos que sangram
e um dia a morte só lhe trará terror.
[…]


© Luís Olival

«Escuro», Rui Pires Cabral

Pergunto-me desde quando
deixou de haver futuro
nas janelas.
Janeiro dói nos olhos
como areia
e tu e eu estamos para sempre
sentados às escuras
no Verão.

4.06.08

semana e meia

(adaptação destruição de um original de Raim)

2.06.08

17

A intensidade ou pior. A memória de um último beijo. Uma rede de arame de permeio e os pés dela numa poça de água.

didn't... didn't anybody... didn't anybody tell you


de ponta

A pressa desta gente ao fim da tarde. Correm para um comboio como se fosse o último. Filhos à espera, talvez. Deve ser bom ter pressa.