9.02.10

epígrafe demasiado longa para poema distante

para FQ

Sem a tua proximidade
talvez eu me tivesse tornado
um totó ainda mais insuportável

(nem por isso penses que esqueci
Yes, Camel, Emerson, Lake & Palmer
e quase todos os guedelhudos enfadonhos
que tive de ouvir enquanto estiveste por perto).

Depois, no tempo certo ou errado, já não importa,
falou a natureza das aves e das galáxias:
- Bateste, bati, ambos batemos as asas que não herdámos
e fomos tropeçando por aí,

nas penas e restos que carregamos um do outro
(não sei se será, mas dizem que sempre foi,
terá sido assim?).


piccola sicilia

Que eu tenha ouvido, entre outros nomes menos benignos chamavam-lhe grego e cigano, isto é, mero comerciante de afectos, se bem que a origem e a ascendência, felizmente, excepto em tachos públicos ou semi-públicos, pouco pesem nos dias de hoje. Que ele e mais uns amigos planeavam deitar a mão em vários negócios, ouvi também. Pois assim vai a amizade hoje em dia. Antes amizade fosse, mas não é. Nada assim dura - o interesse mútuo, talvez, por breves instantes. Depois, tudo decai porque os alicerces não valem, nunca valeram para além do benefício que nunca foi partilhado senão pela conveniência do momento. Isso, todos sabemos, não dura mais que segundos. Nenhum chega primeiro e todos serão os últimos. Não restará ninguém para fechar a porta.

8.02.10

algo sobre este fim-de-semana


O Blogger Cada Vez Mais Esporádico acordou pouco depois das 08:00 de hoje com esta estimulante música dos Divine Comedy a bufar na RADAR, e logo lhe apeteceu saltar da húmida cama para trabalhar/andarilhar por esta Lisboa fora, mas não pôde fazê-lo porque o seu corpo, cumprindo a tradição de traí-lo com uma gripezita por cada década, não o permitiu. Com efeito ou nem por isso, ocupou o passado fim-de-semana a afogar pijamas e lençóis em febris tsunamis de suor e lucidez que o fizeram entrever o tempo desperdiçado com blogues. Claro que, pouco após, viu-se a distrair as enfermidades do seu presente com o desenho de mais alguns posts. «Até quando?» é uma questão que os resquícios da febre vão adiando.

.

das palavras enquanto pavilhão multiusos

[O Blogger Cada Vez Mais Esporádico, apesar da noção do deserto que atravessa ao referir-se a si mesmo na terceira pessoa, conclui que não é fácil enquadrar simples episódios do seu dia-a-dia entre citações e ocorrências alheias de maior relevância, mas continua a tentar, quanto mais não seja para conseguir enxergar um pouco além do seu umbigo.]


Uma coisa é (deixaria de sê-lo se não fosse?), num espaço de poucas horas, em circunstâncias e meios muito diferentes, escrever e dizer a dois interlocutores: “aquilo nasceu do delírio” e “isto é um blog, não é a realidade”. Sendo ambas as respostas verdades absolutas, ambas igualmente confirmam a já reconhecida distância entre a coisa e a palavra que não a traduz.

Outra coisa não muito diferente ocorre quando um antropólogo do início do séc. 20 (Lucien Levy-Bruhl, Les fonctions mentales dans les sociétés inferieures, 1918), me chama troglodita e recebo tal adjectivo como um elogio:


[Nos mundos primitivos] não existe percepção que não seja envolta num complexo místico, nem fenómeno que seja apenas um fenómeno, nem sinal que seja só um sinal. Como é que uma palavra poderia ser apenas uma palavra? Qualquer forma de um objecto, toda e qualquer imagem plástica, qualquer desenho possui virtudes místicas; a expressão verbal, que é um desenho oral, não poderia deixar de possui-las. Este poder não pertence apenas aos nomes próprios, mas a todos os termos, quaisquer que eles sejam.


Já outra coisa, de significado oposto, aconteceu a William Carlos Williams durante esse período negro da história ianque a que os brasileiros chamam Macartismo.
Indicado, em 1952, para consultor poético da Biblioteca do Congresso, W.C. Williams, talvez pela suave proximidade de sensibilidades artísticas de esquerda, foi alvo de investigação por parte do FBI, o qual arranjou maneira de infiltrar, como enfermeira, uma sua agente junto do poeta.

Duas coisas resultaram daí: W.C. Williams foi vetado para o supracitado tacho, apesar de a enfermeira nada ter descoberto de incriminatório, pois rezava o policial relatório:

“WCW is a sort of absent-minded professor type, who employs an expressionistic style that might be interpreted as being a code.”


[Passe a óbvia distância, também assim vai caminhando o Blogger Cada Vez Mais Esporádico: absent-minded ou não, expressionistic ou algo hermético, traduzindo gestos, marimbando-se para os codes exclusivamente virtuais.]

7.02.10

tune-yards x 2

2 faixas do melhor disco publicado em 2009:



Pouco passa das cinco da manhã e não consigo encontrar uma razão bastante para olhar um rectângulo luminoso que já pouco me diz.

5.02.10

was ich dir zu sagen habe, älterer bruder


2.02.10

das mãos, uma elegia

Não é que isto interesse a mais alguém para além de mim e dos que me são próximos, mas hoje comecei a trabalhar, i.e. a caminhar, às 10:00 e só parei às 17:00. Aqui, cometendo mais uma inconfidência comum em blogues umbiguistas, registo que quem me poderia providenciar algum conforto, i.e. uma simples mas bem-intencionada massagem nos pés, só vai chegar mais logo.

Daí que a primeira coisa que fiz ao chegar a casa foi abrir o próprio blog (sim, mais um indício de autismo virtual) para que aquela belíssima música do post de baixo (alguém terá reparado nas flautas?... não creio... já quase ninguém perde tempo com o todo, quanto mais com detalhes) me entrasse nos tímpanos e fosse por ali abaixo até às minhas extremidades inferiores, comprovando o que dizem homens e mulheres de bata branca: que para além da mioleira é nas patas que se concentra uma maior quantidade de ramificações nervosas.

Seja isso verdade ou mistificação paracientífica, o facto é que funcionou. Por esta e por outras, vai ser sempre difícil entender quem privilegia os estupefacientes para conseguir um efeito nunca semelhante, apenas vizinho distante da música.

Há quem não vá muito à bola com música? Acordem no corpo um modo de ouvir (fica aqui o mp3 para quem não sofrer de pruridos legais ou futebolísticos).

Preferem palavras? Nunca pior, adormeçam no corpo um modo de ver, neste caso o de João Miguel Fernandes Jorge:


Uma fotografia de Ed van der Elsken,
de que não sei a data e que não voltei
a ver O Amor na Margem Esquerda
mostra um oriental muito novo.
Fustigado pela abundância do sonho,
sob o rumor da subterrânea corrente do
desejo, adormeceu a uma mesa de café.
Rosto de flor de cerejeira
em repouso sobre o vidro. As pálpebras
fixadas no virar e voltar do sono, que
é como quem se sente diverso no espelho
dos cafés. Sobre o tampo da mesa, bem
junto à face, entre um copo e um cinzeiro
com duas amarrotadas notas de 100
francos, uma folha de papel, em notícia,
dizia

Para ir fazer amor
eu preciso de 450Frc.
Aceito todas as dádivas.

Não me acordem

No rebordo do cinzeiro a palavra cigarra.
Também ele cantou o abrir dos sentidos ao
amanhecer. Também ele cantou as coisas
mínimas como se fossem pertença de um
gozo pleno e infindo.
A cada jogada, fora ou dentro do seu sangue,
surgia uma cidade desconhecida com
novas praças e ruas, novas estátuas, fontes,
as trevas de um jardim.
Agora, de olhos cerrados, espera o brando
pousar da última nota, o latir caído da derradeira
moeda

para diminuir a distância e
adormecer no corpo um modo de ver.


Seja, adormeçam ou acordem o que bem entenderem. Cá por mim, enquanto sentir uma caixa de ritmos que palpita debaixo da pele, continuarei a perguntar:

Qual debate televisivo, sexo tântrico, educação sexual, viagra, prozac,

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tetrahidrocanabinol, benzodiapinas, opiáceos, alcalóides, mdma,

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semiótica, óptica, cientologia, aromaterapia, lipo-o-que-for,

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acupunctura, feng shui, reiki, IV reich, calvin klein, gucci, prada,

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orçamento geral do estado, neoliberalismo, reuniões do G-8,

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51 padres nossos, 35 avé marias, 493 sharias, o diabo a 7,

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qual carapuça? Massagem, sras e srs, M-A-S-S-A-G-E-M.

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Música, palavras, os dedos dos que vos são mais próximos, tanto faz, mas toquem-se de quando em vez. Passe a lamechice aparente: sintam-se, sintam o outro sem favor nem rancor. O resto, o melhor de cada um, virá depois.

1.02.10

tudo menos a rapariga

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da variedade dos dias

Tendo chegado ao ponto de utilizar uma doença familiar (o coração, sempre o coração) no fabrico de um post, das duas, ambas: é uma desvergonha; no mínimo, falta de assunto. Alongo essa descaradeza um pouco mais e, urgh, cito-me:

4.1.10: “quase não tenho lido papel”; 9.1.10: “talvez por não ter lido quase nada nas últimas semanas”; 30.1.10: “uma arroba de livros para as horas mortas, mas nenhum grama de tanto papel consegue aliciar-me.”

É certo que, sendo este um dos raros sítios especializados no assunto, admita-se, um vero farol das Letras e artesanatos similares, mais valia ter calado tamanho despautério, sob pena de manchar indelevelmente uma reputação incólume, construída passo a passo, folha a folha, da fotocópia ao papel almaço, do calhamaço ao catrapázio, desde os bancos da pré-primária.

Sendo isso péssimo, pior ainda tem sido o gasto contínuo, compulsivo desde há vários meses, entre 10% a 15% do meu salário em maços de papel prensado que nem os meus netos terão tempo de ler. Até a minha companheira, que um dia chegou a ameaçar: “mais um livro fora do sítio e troco-te pelo Marcelo Rebelo de Sousa… sempre tem um ar mais arrumadinho”, já desistiu de admoestações. É incontornável, se o distinto professor tiver bedfellows, eu tenho bidéfellows. Por exemplo, este mantém-se lá há vários dias (não está fácil):


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Desgraçadamente para mim e para ela, também tenho trainfellows, carrisfellows, sofafellows, estante dos sapatosfellows, mesinha do hififellows, dinnertablefellows, até mesa da kitchenettefellows (tudo isto, claro, para demonstrar que o Português é um dialecto estrangeiro):


Foto0067a.jpg


Só me falta ter um dia fellatiofellows para os intervalos de almoço. Mas chega de poucas-vergonhas. No âmago mais profundo, (partilho esta única característica com o Prof. Marcelo), não vejo como os meus hábitos de leitura podem interessar ou importunar seja quem for.

Deveria antes escrever sobre coisas realmente úteis. Não, não me refiro a Mário Crespo, essa luminária do jornalismo engagé (enfim, dos poucos que atrevia a ser do contra); nem ao lucro de 700 milhões de euros que os industriais da saúde privada apresentaram em 2009 (alguém se lembrou de contabilizar quantos milhões terão recebido do Estado?). Estou antes a pensar no perfeito equilíbrio dos melhores pastéis de bacalhau de Lisboa, servidos perto de uma esquina entre a Av. de Roma e a Rua Frei Amador Arrais. Raismepartam, tenho, terei forçosamente de descrever o que cada mortal deveria encontrar num pastel de bacalhau. Hoje não me apetece. Fica para outro dia.

30.01.10

caixa de ritmos


[O Blogger Cada Vez Mais Esporádico (Cada Vez Mais, por parte da mãe; Esporádico, apelido que herdou do pai), encontra-se deitado numa cama, numa casa que já foi quase sua. Levou consigo uma arroba de livros para as horas mortas, mas nenhum grama de tanto papel consegue aliciá-lo. A bem escolher, apetece-lhe um aditivo forte, qualquer coisa que o bestifique, que o ponha a dormir em três goles. Nada de possível tem por perto, tampouco lhe sobra vontade de procurar. Para cativar o sono, ocorre-lhe escrever um post sobre as longas horas deste dia.]


Estou num hospital "de traça neoclássica que no séc. 12 se chamava Roque Amador", dizia no monitor do hall de entrada. Pertence agora a Santo António. «Roque Amador» soava melhor, penso, enquanto me perco, como sempre acontece em hospitais desta dimensão. Algures entre estas paredes, um homem com 83 anos aguarda que lhe enfiem uma caixa de ritmos no peito. Mal direccionado pela minha impaciência e pela falta de objectividade das indicações alheias, desaguo na enfermaria onde o homem com 83 anos deveria estar se já lhe tivessem plantado a maquineta debaixo da pele. Sento-me. Desisto dos labirintos e becos com demasiadas saídas. Numa cama ao lado, uma avó com 99 anos adormece ao fim de três ou quatro parágrafos de um livro de Mário Zambujal lidos por uma neta. Ambas queridas: a avó, na quietude do sono; a neta, no sorriso que repartia com a avó, comigo e com todos daquela enfermaria. Cansado de esperar por novas de médicos ou enfermeiros, meto-me num elevador, a caminho de um cigarro. Dentro dele, encontro o homem de 83 anos, sorridente numa maca. Dissimulando a alegria de vê-lo vivo, só me ocorre perguntar-lhe:
- Então, o que te apetece agora ou mais logo?
- Cabrito assado com batatinhas.


[Concluído o post com um final feliz, o Blogger Cada Vez Mais Esporádico liga a tv. Num zapping, inevitável como tantos outros, encalha num documentário do Odisseia sobre navios afundados durante a 2ª Guerra Mundial. O Pacífico, dizem, transformou-os em recifes artificiais. Ouve os pianos da música de fundo, cristalinos, quase liquefeitos entre tubarões, espadartes, fanecas e corais. Tudo consoa, todos os peixinhos e peixões parecem nadar felizes, sem querer saber do amanhã. Desliga, esperando que o sono também lhe aconteça dentro de segundos.]