27.01.12

“Conheces Dante?”





Quando estava na universidade, na Columbia, eu e o meu amigo Luc Sante costumávamos ter discussões com os professores acerca das hierarquias culturais. Dizíamos “Ok, adoramos ouvir Bach, mas gostamos igualmente dos Ramones. Gostamos de Dante, mas também gostamos de Charles Willeford”. E como é que se pode dizer que Willeford é só porcaria de cordel, e que Dante é clássico? Dante escreveu no vernáculo do seu tempo, o que era inaudito. Foi o primeiro a utilizar o italiano falado – como o hip-hop de hoje! Portanto, como pode ser isso diferente de ouvir os Wu Tang Clan? Não vejo a diferença. Claro, agora estou mais velho, e acontece-me ter esta conversa às avessas: “Sim, pá, adoro cultura popular, mas, olha lá, conheces Dante?”


Jim Jarmusch, excerto de entrevista em Jim Jarmusch -
Melancólica Independência
(Cinemateca Portuguesa, 2007)


Kennst du das Land, wo die Zitronen blühn,
Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühn,
Ein sanfter Wind vom blauen Himmel weht,
Die Myrte still und hoch der Lorbeer steht?
Kennst du es wohl?
Dahin! dahin
Möcht ich mit dir, o mein Geliebter, ziehn.

Kennst du das Haus? Auf Säulen ruht sein Dach.
Es glänzt der Saal, es schimmert das Gemach,
Und Marmorbilder stehn und sehn mich an:
Was hat man dir, du armes Kind, getan?
Kennst du es wohl?
Dahin! dahin
Möcht ich mit dir, o mein Beschützer, ziehn.

Kennst du den Berg und seinen Wolkensteg?
Das Maultier sucht im Nebel seinen Weg;
In Höhlen wohnt der Drachen alte Brut;
Es stürzt der Fels und über ihn die Flut!
Kennst du ihn wohl?
Dahin! dahin
Geht unser Weg! O Vater, laß uns ziehn!



Kennst du das Land?, J.W. von Goethe

Vem, Natália, vem daí
(rascunho de uma coisa, parágrafos
partidos, algo assim em construção)

para Natália de Andrade


Não voltes, Natália, que já não vale
O teu laço verde, Rua do Carmo acima
Segurando a franja, mas não o sorriso
É já outro o Chiado, arderam os Armazéns


[falta aqui uma ponte, duas quadras talvez, entre
um particípio de antanho e um futuro por imaginar]


Vem, Natália, vem daí, que tardamos já
Conheces a terra dos limoeiros em flor?
Goethe não morreu, nem tu sequer, alma
Despida, como dantes, de boneca trajada

[…]


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[Lisboa, ou seja, o meu trabalho, é, a mal dizer, uma coisa, e, melhor jurando, um sítio ainda capaz de surpresas. Na semana passada, conheci uma prima em 2º grau de Boris Vian. Queridíssima, a coitada, já com mais de 90 anos, entrevada e assim, já pouco dizia, mas tinha um sorriso fantástico. O marido, cavalheiro dessa espécie quase extinta, confessou-me o desejo de os seus bisnetos nunca poderem ler "Hei-de cuspir-vos nos túmulos". Adiante. Ontem à noite, aos saltos pela Net, encontrei o rasto de Natália de Andrade. Esta manhã, encontrei quem com ela se cruzou na década de 80 e me descreveu alguns detalhes pitorescos sobre a dita senhora. Enfim, como em qualquer lado, vão acontecendo uns dias que resgatam os outros]

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Momentos TMN


- Ó musa que sempre m’assistes
'Tou aqui a meio de uma coisa
Perto da Lua ou nem isso…

- Hum?

- Sim, ‘tou aqui, não sei bem onde. Suponho que Lisboa
Num jardim de Campo de Ourique, talvez. Das árvores
Começaram a tombar brancos fiapos e então recordei
Outra coisa que de memória citaste no Verão passado
Numa noite, na A2, quando a casa regressávamos
Da Amora, um sítio já pouco floral, na margem sul
“As palavras são como lírios”, ou algo assim
Falta-me o resto…

- “As palavras são como lírios”?!
Essa cabeça de pássaro… nada disso.
“As memórias são como livros escondidos pelo pó”
Esses eram versos de uma canção dos…

- Bolas, não! Nessa gente não confio por aí além
Parecem confundir ideais com interesses próprios
Ou talvez não. Viverão inteiros no corpo ou à esquerda
Sós no papel? Distinguir sentires fácil nunca foi
Permito-me duvidar. Jovem nunca fui e já não serei
Ainda bem que a memória tem dias, meses nunca
Já nada grava para sempre. Devorando assimila
Para logo após soltar um perfumado vómito…

- Oh, José! “Vómitos ou lírios”?
Tenho de trabalhar umas horas mais
A gente lê isso melhor ao fim da tarde.